Weme Experience Portugal Lisboa e o descobrimento da abstração

Desço na estação Santa Apolônia morrendo de fome, e já me enfio em um dos primeiros botecos que vou com a cara. Peço um prego, um sanduíche português bem simples e bom com queijo e mignon. Não dá pra sentar lá dentro, é só pra quem vai pedir almoço mesmo. O sol tá de rachar, mas acabo arrumando um canto com sombra em uma das mesas compartilhadas lá de fora. Sentam-se ao meu lado um senhor português, de paletó bege claro e com tipo intelectual, e uma coroa norte americana, toda de preto e no estilo atriz cinquentona. Ele começa a discursar sobre a história dos navegadores e sobre o poder que o seu país possuía a pouco mais de cinco séculos atrás, enquanto ela me elogiava a cidade de São Paulo, a beleza da mulher brasileira, e se queixava da dificuldade de se fazer entender na sua última estadia no Brasil: “-todos não paravam de me olhar, como se eu fosse uma estrela de cinema ou algo do tipo, mas no meio disso tudo eu não conseguia pedir sequer algo pra comer.”


Arco da Rua Augusta, visto da Praça do Comércio.


Entrada da Rua dos Sapateiros.

O tom esquizo da conversa do almoço e o longo percurso que tenho que percorrer na luz do meio-dia pra chegar até a Praça do Comércio, porta para o centro de Lisboa, começa a criar uma impressão de distanciamento da cidade pra mim. Este atributo fica ainda mais claro quando passo a andar em círculos na praça, sem ter lugar pra me esconder do sol, até eu decidir não pegar ônibus nem metrô nem bonde nenhum e subir direto pela Augusta, que na minha imaginação devia ter sido a primeira e principal rua de trocas de mercadoria vindas de embarcação pro velho mundo — fato que não consegui comprovar até agora. Mas é só ver os nomes das suas vias paralelas, que prestam homenagem às atividades que lhe eram vitais nos seus primórdios, pra ter uma noção da história que ela tem: Rua da Prata, dos Sapateiros, Correeiros, Douradores, Fanqueiros…


Chafariz da Praça do Rossio.


Rua Bernardino Costa, logo atrás do Cais do Sodré.

O final da Augusta desemboca na Praça Dom Pedro IV, mais conhecida pelo nome de Rossio, e fico ali um tempo absorvido pela abertura que ela provoca bem no miolo do centro urbano. Porém a relação de distância com a minha anfitriã faz com que eu não confie no acaso das suas subidas, e tomo o sentido oposto ao Bairro Alto. Sigo a Conceição – mesmo nome da rua na qual passei a morar pela primeira vez sozinho – atravesso a Catedral da Sé e chego até o Miradouro de Santa Luzia. Quando começo a sacar este pequeno pedaço de estilo mediterrâneo no meio da cidade, com turistas e habitantes da região tomando ar, molhando os seus pés na piscina baixa, aproveitando o sol do meio da tarde, a sensação de renovação começa a acompanhar a minha visita à Lisboa.


Piscina do Miradouro de Santa Luzia.


A Alfama vista do Miradouro.

É de cima do Miradouro que tenho uma visão clara do Tejo e da extensão que mais iria marcar o meu dia na Cidade das Sete Colinas, a Alfama. Renovado, desço novamente até a Praça do Comércio pra pegar um trem até Belém e provar os famosos pastéis que levam o nome da região. Antes, passo pelo Terreiro do Paço pra sacar a onda das pessoas que ficam um tempo sentadas nas escadas do Cais das Colunas. Dá pra perder um bom tempo imaginando se alguns dos nossos antepassados saíram dali mesmo, quem partiu, quem ficou; como a nossa história começou e qual era a dimensão da loucura de se lançar daquele ponto.


Monumento do Padrão dos Descobrimentos.

Em Belém, dá pra pensar nisso de uma forma mais monumental quando se está de frente pra Rosa dos Ventos e pro Padrão dos Descobrimentos. É com essa memória meio abstraída que eu saio de lá, passo novamente pelo centro da cidade e caio quase sem querer dentro da Alfama. A idéia era cortar pelo bairro, mas não de se perder. O lance é que quanto mais eu acreditava chegar perto da Santa Apolônia e tomar o destino de volta pra casa, mais as ruas ficavam estreitas, menos pessoas se mostravam, e o caminho ia parecendo cada vez menos ter sentido. Cachorros vira-lata andando solitários, ruas sem saída, crianças gritando pra turistas ingleses, bifurcações, casais brigando na garupa da moto, esquinas vazias, muitas roupas estendidas nas sacadas, velhos na frente de casa, ladeiras, alemães tomando vinho e… a estação de trem.


O Padrão dos Descobrimentos voltado pra saída do Tejo.

Como é fato, a parte da viagem que mais me marcou foi a única que não consegui e nem mesmo pensei em tirar uma foto sequer. Ela deixou algo inalcançável na minha memória, algo que eu só consigo chegar perto novamente se fechar os olhos e tentar me lembrar das imagens reais que deixou na minha cabeça. Imagens que mudam de forma e de cor a cada tentativa de reve-las, que evoluem a cada novo souvenir que coleciono ao tentar encontra-las. A minha maior experiência em Lisboa foi perder-me por alguns minutos na Alfama. E sem dúvidas, o atributo mais fascinante desta cidade pro seu visitante de uma só tarde foi a sua capacidade de jogar com a abstração.

Retratar a imagem de Lisboa como um labirinto seria um pouco simplista demais. Ela parece mais um aglomerado de formas em laranja e branco, com um céu muito claro ao fundo e com frestas entornadas contra o azul do Tejo. A sua voz é longínqua, piedosa, idêntica àquela entoada pelas grandes cantoras de fado. Inevitável não lembrar do Lisbon Story do Wim Wenders. O longa metragem narra a história de um engenheiro de áudio — Phillip Winter — que é convocado por seu amigo cineasta para completar um filme inacabado sobre Lisboa. Chegando em Portugal, tudo o que Winter encontra são incontáveis trechos de película capturados sem qualquer linearidade, somando inúmeras impressões da cidade a partir do ponto de vista do amigo diretor. O engenheiro sai na busca de capturar cada som relativo aos ambientes impressos nas imagens, e uma cidade deslumbrante passa a se revelar diante dos seus olhos.

Trechos da Alfama retirados do filme Lisbon Story.

De uma maneira bem mais elaborada, Winter acaba passando por uma progressão muito parecida com a sequência dos atributos que identifiquei na minha experiência por aqui — distanciamento, renovação, abstração — me levando a constatar o quanto é possível renovar o entendimento de branding ao se lançar em uma grande e bela cidade, e que o cinema autoral pode ensinar muito mais do que eu podia imaginar pro entendimento e aprofundamento de experiências de marca.

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