Weme Experience Espanha O paraíso cosmopolita de Barcelona

Vista da janela do avião a cidade é muito iluminada. Muito iluminada mesmo, dá pra perceber melhor ainda quando se está quase aterrissando. São dez horas da noite. É impressionante ver a diversidade cultural das pessoas dentro do ônibus que leva do aeroporto pro centro. É gente de todo tipo: é a americana perdida com o mapa na entrada do metrô, é o tipo sueco com calças e sandálias hippie sorrindo pra tudo o que vê, é o cara todo tatuado procurando um lugar pra carregar o seu iPhone, são os pais de estilo clássico com a criança que passa pelo colo de todos os passageiros, sou eu perguntando em “portanhol” pra que lado devo ir pra chegar até a Sagrada Família: -“Tanto faz. Pode seguir em frente ou virar à direita. Uma hora você vai se deparar com ela.”


Viela localizada na divisa entre o Eixample e o Barri Gòtic.

Sinal errado. É quase impossível visualizar a catedral a noite no meio de tantas árvores altas que povoam o distrito de Eixample. Vou seguindo as anotações com nomes de rua do meu moleskine, passando pelos bares e bistrôs que sempre têm ao menos uma mesa com gente pra fora ainda. Depois de andar muito, finalmente passo por uma Sagrada Família bem discreta em meio à escuridão, como se tivesse repousando pra aguentar a bateria de visitas do dia seguinte, e chego no hostel pra tomar uma ducha e dormir direto. Já tinha perguntado quais lugares eu não podia deixar de visitar pra Gabriela e acordo cedo pra pegar um metrô direto pra Barceloneta. Vou descendo devagar encantado pelo bairro de ruas planas, estreitas, cheio de roupas e flores nas suas janelas. Paro pra tomar um café na praça que leva o mesmo nome da região, localizada em frente à Parroquia de Sant Miquel del Port, e pelo tipo do casal de japoneses que sentam-se na minha frente, vestidos com seus paletós e tênis coloridos de cano longo, já começo a notar um clima de desapego — o primeiro dos atributos que identifico por aqui.


Praia de Barceloneta com o bairro de mesmo nome ao fundo.


Vista de baixo do Arc de Triomf.

Desapego por não se importar se as pessoas vão pensar que você é assim ou assado só pelo jeito que se veste ou pelo modo que penteia o cabelo. Na praia, que fica logo à frente do bairro, tem mulheres fazendo topless, tiozões boiando no mar, casais tomando cerveja no meio das pedras. Dobro umas três vezes a barra da calça e vou o até onde consigo pra dentro d’água também. Seguindo pela calçada que beira a orla, agora com metade da roupa molhada mas com coragem pra continuar o trecho sem camiseta, a imagem de um Rio de Janeiro modernizado me vem na cabeça. É o trânsito, são as bicicletas, as pessoas praticando corrida e andando com seus cães. A paisagem descolada é composta por uma arquitetura admirável de fundo, o arco do W Barcelona, o prédio do Parc de Recerca Biomèdica, a escultura em forma de peixe do Frank Gehry. Subo pelo Carrer de la Marina até o Arc de Triomf, cruzo por turistas, gente de todo tipo, um desses caras que fazem bolhas de sabão gigantes e chego até a Plaça Universitat pra ativar o wi-fi, almoçar algo e tomar uma coca no lugar da “copa” de cerveja que tentei pedir.


Fachada do prédio do Parc de Recerca Biomèdica de Barcelona.


Espaço externo do Palau de Sant Jordi.

Desço pra pegar um metrô em direção ao Montjuic e descobrir um dos cantos mais incríveis que já me enfiei. O Palau de Sant Jordi é uma das obras construídas para as olimpíadas de 1992, e a sua planta externa tem qualquer coisa inspirada pela disposição do espaço do Palais du Versailles ou do Taj Mahal. Visualmente não há nada de tão especial nos seus detalhes, mas o equilíbrio dos elementos arquitetônicos dão a impressão de impactar diretamente o estado de espírito de quem tá lá presente. Sozinho em um de seus bancos de fundo, tenho a sensação de encontrar um daqueles lugares únicos que dão um reset na nossa mente. Por um instante parece que o corpo, a memória e as coordenadas físicas estão perfeitamente alinhados. Nessa hora dá pra sacar que o processo de individuação está um passo adiante do individualismo. Pra alcançá-lo, é necessária muita luta solitária, porém o seu estalo se dá justamente em um momento de plenitude, quando não importa mais com quem e onde se está. É assim que passo do ponto de individuação, o atributo de relacionamento da cidade, pra multiplicidade, o seu atributo filosófico.


Os corredores do Mercado La Boqueria.


As vielas do El Raval.

Pego o metrô de volta à Catalunya pra descer até o Mercado La Boqueria, onde a “máfia” daqui se senta no final da tarde pra tomar chopp em meio a um cenário repleto de e carnes e queijos dependurados. Saio pelos fundos e me meto nas vielas sombrias do Raval, que exibe os seus lustres característicos contra o céu aberto e seus moradores esquivos entrando por portas que sabe-se lá pra onde levam. A multiplicidade que a cidade te força a vivenciar fica mais evidente quando cai a noite nos arredores da Rambla. Depois de passar pelo ponto de gravitação de Barcelona, a entrada do Palau Nacional — uma espécie de miradouro pra Plaça Espanya com o Park Guell ao fundo — vou pro hostel e tomo força pra última parte da minha visita à Ciudad Condal. De volta ao centro, a movimentação de pessoas tá no seu auge. Encostado na mureta da entrada do metrô, assisto aos Top Manta subirem a escadaria com as suas trouxas de bolsas e começarem a vender o máximo de falsificações possíveis antes da polícia confisca-los. Outros personagens singulares são os que se misturam àqueles que abordam turistas pra oferecer restaurantes e hotéis, e fico tentando fitar o jeito que se mexem pra ver se não são estes os famosos carteiristas. Mas o que mais me chama atenção no meio disso tudo são as gangues de norte-americanos ítalo-descendentes, com penteados de filmes do Scorcese e enormes correntes de ouro em volta do pescoço. O comportamento dos “donos da rua” é tão peculiar e expansivo que chega a intimidar os pedestres, mas mesmo assim tento me misturar um pouco a eles pra sacar como é que funciona o calçadão visto a partir dos olhos de um falso gângster.


As obras intermináveis da Catedral de la Sagrada Família.

“Barcelona é uma festa”, diria a Gabriela adaptando o título traduzido do clássico “Moveable Feast”, que o Hemingway dedicou à Paris. Pra mim parece isso mesmo, uma festa em meio a um grande parque de diversões. A imagem da cidade é colorida, um mosaico como aqueles do Gaudí no Park Guell — justamente um dos lugares que não tive tempo de visitar. O tom de voz é múltiplo, poliglota. Timbres de canto polifônico entoado por todas as línguas que aqui habitam, com uma melodia circense ao fundo numa destas composições que o Nino Rota faria pra um filme do Fellini. Depois de voltar da Ciudad Condal, dediquei ainda mais atenção na importância de afirmar cada fase do que passou, cada coisa que já ouvi, assisti, experenciei, como um modo de alimentar a individualidade. Não se trata de viver do passado. É mais uma questão de deixar todos os caminhos abertos pra poder voltar, avançar e se multiplicar sobre cada oportunidade que a vida apontar, sobre cada lance de acaso que ela criar.

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