Pudores matam mais vida que ímpetos.

– Você escreve muito difícil.

– Quer dizer prolixo ou erudito?

– Tá vendo?! Vamos fazer assim: sempre que estiver comigo, cada palavrão que você falar, me paga 10 reais, pode ser?

– Dá alguns exemplos de palavrões que esta criança aqui não vai poder falar…

– Zeitgeist. Epistemologia. Hermética. Idiossincrasias. Preconizavam.

– Hum.

– Topa ou não?

– Topo. Se bem que é mais fácil o João Gordo sofrer de anorexia ou o Mar Morto ressuscitar.

– Tá cheirando o que aí nesse livro?

– Acabei de ler. É um pensamento básico sobre a ética da ação.

– Sei… Me conta…

– Diz que nossas ações podem ser pensadas de duas formas: absolutista ou consequencialista.

– E qual é a certa?

– Aí é que tá. Não existe uma resposta.

– Tenta explicar, sem me pagar nada, a diferença entre essas duas coisas.

– Absolutista é alguém movido apenas por suas convicções, seus princípios, não importando as transformações que essas atitudes fazem ao seu redor.

– Alguém que tá cagando pros outros, é isso?

– Exato, isso também. E consequencialista é alguém preocupado apenas com o resultado do que faz, não importando o ato em si, mas o que acontece depois.

– Você disse apenas. Tem como ser “apenas” uma coisa?

– Acho que não, né? É por isso que não existe certo ou errado.

– Lembrei daquela frase do Pequeno Príncipe.

– “Você é eternamente responsável por aquilo que…”

– Essa! Ele não queria ser responsável, pois não tinha feito “nada” para cativar, estava sendo ele mesmo… Absolutista.

– É… Acho que não dá pra ser uma coisa ou outra, mas as pessoas — e as empresas, têm tendências. Se não se preocupam com o que vai acontecer, acabam tendo graves transtornos sociais. Se só se preocupam com os resultados, acabam por reprimir seus desejos de uma forma muito forte.

– E qual a minha tendência?

– Inconsequencialista.

– Ha-ha-ha.

– Uma empresa preocupada apenas com as metas financeiras, pode perder seus valores essenciais.

– Consequencialista.

– E uma organização focada apenas em seus princípios, sem considerar o ambiente…

– Absolutista, pode falir.

– Isso… Mesma coisa com pessoas.

– O absolutista sempre tem razão. Tipo àquela gente que vai pra outro Estado do Brasil e acha que lá existe sotaque, mas que ela mesma não tem um.

– Ou o consequencialista, que prefere ser aquela metamorfose ambulante, sem opinião própria.

– Podemos dizer então que a maioria das pessoas e empresas estão na tendência de focar em metas, resultados, no que os outros vão pensar, como vão reagir, sendo guiadas muito mais pelas consequências que querem gerar?

– Mas que bela explicação, querida! Eu acho que sim, mas não tenho certeza.

– Tampouco seria legal se todos seguissem seus próprios valores, sem considerar os outros, pois nossas crenças não são universais…

– Caramba, estou tendo uma aula aqui…

– Digamos que você fosse um cara equilibrado, bem imaginativamente falando, e tivesse que escolher tender pra um lado? Que lado seria?

– Acho que o das crenças, absolutista. Mas, na minha opinião, o mundo é um constante exercício de empatia, um infinito movimento de acordos, onde fazemos a intersecção entre os nossos valores, o ambiente e os valores dos outros.

– Concordo. Eu também tenderia, acho que mais fortemente que você, pra um modelo mais passional.

– Como assim?

– Sou mais impulsiva. Cairia pro lado de ser as minhas crenças, por mais distorcidas que sejam. Se eu for relativizar tudo, acabo por não viver a minha história pessoal, mas a biografia de alguém genérica.

– Gostei… Acho que este texto já dá um caldo. Vou publicar.

– Que texto? Você não tá escrevendo nada…

– Esta conversa, vou transcrever.

– Eita! Me dá os créditos, ok?

– Tá.

– Que título você vai colocar?

– Tava pensando em algo como “A dialética da ação”.

– Tá de brincadeira, né?

– Não… Rs… Mas então me dá uma ideia…

– Sei lá… Algo como “o medinho de agir que nos mata devagarzinho”… Afinal, esse livro não é sobre agir, ação? Você tem talento pra escrever algo que dê pra entender, faz uma força, vai…

– Tá, e quanto eu te devo pelos palavrões?

– Até que não deve tanto, mas depois te passo a conta.

– Vê lá, quando voltar, se aprova o texto.

– Tá. Beijos.

– Beijos.

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