Para não confundir gestão com liderança

Em um contexto volátil e incerto, negócios e profissionais que desejam inovar e prosperar, precisam compreender a diferença entre administrar, comandar e liderar.

Por diversas vezes as pessoas utilizam os termos liderança e gestão como sinônimos, usados de forma indiferente tanto na teoria quanto na prática. Porém existe uma diferença significativa entre os dois conceitos. A gestão é um processo pelo qual a aplicação prática do programa e objetivos da organização são garantidos, a liderança em contraste, visa trazer para a perspectiva as ideias e a motivação das pessoas. Os conceitos não são excludentes, a liderança, é, assim como o comando ou a autoridade, um instrumento de gestão disponível. Esses instrumentos são diferentes em suas potencialidades e limites. As condições do contexto, a natureza das tarefas e as contingências da história do grupo são as fontes de critérios para a estratégia de gestão e, portanto, da escolha dos instrumentos.

Para responder às necessidades de organizar a produção e a coordenação das atividades nas organizações, de um lado, e de construir uma sociedade mais racional, orientada pela ideia de progresso, de outro, inventou-se a gestão. Hoje, nenhuma esfera da vida social deixa de estar sob a influência do pensamento gerencial. A gestão, foi durante muito tempo pautada na regulação. Caracterizada pela priorização do comando e da autoridade, e busca da redução da complexidade, a Gestão Reguladora tem uma natureza reducionista. Assim, segundo essa visão, a busca deve ser pela resolução de problemas com o menor esforço e a maior recompensa. Para isso, ferramentas como guidelines, e planos estratégicos e táticos, são aplicados com o objetivo de reduzir a variância e a incerteza na tentativa de criar uma condição estabilidade na organização. A Gestão Reguladora, ao substituir o potencial natural e inato de informação e resolução de problemas, por medidas de regulação, inibe o potencial criativo especialmente quando a adaptação se torna crucial.

Em contraponto ao comando e a autoridade, apresenta-se a liderança, de forma simplista ela pode ser traduzida como influência interpessoal mas é um fenômeno complexo e multifacetado. A compreensão e prática da liderança evoluiu ao longo do tempo (de poder divino, passou a característica pessoal e daí, para processo grupal). Em uma visão mais completa, a liderança como influência interpessoal emerge dos mecanismos mediadores de interação e comunicação acionados pela psicodinâmica interna de cada pessoa e pela trama de condições estruturantes presentes nas redes intersubjetivas que fazem as interfaces entre os indivíduos. Ou seja, falar em liderança é tratar da construção da cooperação espontânea. A liderança constrói a cooperação auto sustentável.

A liderança não existe como uma competência pessoal independente do contexto social, por isso não é um traço do indivíduo, mas produto da interação entre as pessoas. Assim, o exercício da gestão baseada na liderança enfatiza o indivíduo e mobiliza diretamente suas habilidades e valores, e, portanto, suas competências individuais e a subjetividade, como recurso principal para adaptação e evolução da organização.

Se por um lado a gestão das organizações foi durante muito tempo baseada na regulação, do outro, o mundo das organizações vive uma mudança de paradigmas: da produção em massa, com uso intenso de energia e material bruto, para um sistema de produção flexível e adaptável. De um formato de organização cujo objetivo era otimizar rotinas para outro na qual a única “rotina” são mudanças tecnológicas. A gestão dos negócios tem sido então desafiada por condições peculiares — eventos e pessoas se movimentam dentro de redes de fluxos, em alta velocidade. Os sistemas de tarefas parecem não mais dar conta das mudanças geradas pelas múltiplas interfaces e requerem ações adaptativas.

Nesse contexto dinâmico e acelerado de trabalho, a gestão centralizada em instrumentos de regulação — comando e autoridade — é cada vez menos viável já que o cenário exige da organização criatividade, aprendizado e flexibilidade. Em contrapartida, a liderança como instrumento, harmoniza os relacionamentos, ajusta a troca de conhecimentos e compatibiliza os ideais que movem as relações. Dessa forma, contribui para o bem-estar, atua na sustentabilidade dos vínculos e favorece o desenvolvimento das competências dos indivíduos. Colaborando para a estimulação da criatividade, da integração e da legitimação das ações do grupo, expondo o poder emancipatório e empreendedor da subjetividade humana.

Portanto, a gestão é importante para a condução, administração e evolução de uma empresa, os instrumentos utilizados, porém, podem trazer resultados diferentes para as pessoas, e consequentemente para a organização. Se por um lado, em um cenário burocrático o comando e a autoridade garantem a execução dos objetivos e do plano gerencial, em um contexto muito mais volátil e incerto, a liderança como instrumento mediador da subjetividade, e promotor da criatividade e empreendedorismo, pode construir organizações capazes de se adaptar e aprender, e assim mais chances de prosperar no cenário atual.

Referências bibliográficas

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