Nenhuma outra pessoa do mundo tinha esse dom. Não como ele.

Ele tinha o peculiar dom de futurizar jeitos que, num começo de namoro em meio à paixão avassaladora, pareciam fofos, mas que na verdade preconizavam idiossincrasias, isso mesmo, idiossincrasias, horripilantemente repugnantes para o amanhã.

No começo de uma relação, ela era sempre obstinada. Após três meses ou dez anos, dependendo do grau de ingenuidade que ele depositava, teimosa. Mesma coisa para carinhosa e pegajosa, alegre e espaçosa, disciplinada e obsessiva, compreensiva e passiva, trabalhadora e neurótica, inteligente e presunçosa, parecida com a mãe e parecida com a sogra-gorda. Nada passava em branco aos olhos dele. Era como aquele gráfico do ciclo de vida de um produto: lançamento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Ele era especialista em enxergar o declínio antes de qualquer outra pessoa. Para ele, tudo ficava obsoleto, tudo era transitório e, por isso mesmo, nada valia a pena, o esforço, o investimento.

Com o tempo, passou a usar o livre-arbítrio para desescolher em absolutamente todas as ocasiões. Escolhia só que não. Começava terminando. Fez, sem concluir, pós-graduação em todas as ciências e paródias de ciências que tinham como premissas catalogar o passado para prever o futuro. Tornou-se Master Coach Trainner Honoris Causa em futurizar qualquer tipo de coisa. Aquele dom, que havia começado nas relações interpessoais, expandiu-se para a mais ampla variedade do conhecimento humano, de economia à medicina.

Muito mais que um profissional altamente capacitado, que garantia qualidade irrefutável de seus prognósticos, seu network, sua fama e sua credibilidade cresciam em progressão geométrica. Em poucos anos, sua figura tornou-se mítica. Guru era uma palavra insuficiente para designar um ser humano com tamanho talento para ajudar tanta gente a melhorar suas vidas, evitando que seres comuns fizessem escolhas erradas.

– Essa pessoa vai te causar momentos de insegurança.

– Como assim?

– Não vejo certezas absolutas nesse relacionamento, olhando de uma perspectiva maior.

– Então, o que eu faço?

– Melhor esperar.

Era sempre melhor esperar. Para ele, o não-ato de esperar provava quanto uma pessoa era superior, sendo capaz de sobrepujar seus sentimentos e ambições através da crítica de uma razão pura, parafraseando, não por acaso, Kant. Crise? Era melhor esperar. Afinal, alguém totalmente desprovido de racionalidade iria fazer algo e, muito quiçá, algo talvez poderia melhorar. Daí você começaria seu movimento, na total, plena e hermética segurança.

Assim, sua epistemologia do amanhã desmovimentou toda uma nação. E através de milhares, senão milhões, de desescolhas, viu-se um país inteiro de melhores esperando, confiantes irredutíveis em um futuro melhor, que aconteceria independentemente de cada um deles. Formaram-se então os melhores expectadores da vida, críticos eruditíssimos do teatro da existência humana, torcedores frenéticos do amanhã. Que torciam para o tempo passar mais rápido. Que ansiavam desesperadamente pelo que estaria por vir. Que, sem perceber, aceleravam suas vidas para o que toda vida leva.

Ele, enfim, em seu leito derradeiro, o médico perguntou:

– Cremado ou enterrado?

– Posso desescolher passar desta pra uma melhor?

– Não.

– Então tanto faz.

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