Isso vai muito além do “era uma vez”.

A arte de contar histórias é, sem dúvidas, a mais antiga das ciências. Através de uma simples — mas poderosa — narrativa, podemos criar conexões emocionais e psíquicas muito fortes com nossos interlocutores e até mesmo gerar mudanças no seu comportamento.

Às vezes me pego imaginando como foi primeiro conto na história da humanidade. Provavelmente ele se deu através de uma conversa nada articulada entre dois “Australopithecus afarensis” ou algum outro parente com nome esquisito e bem distante. Aos gritos e com a ajuda de gestos e grunhidos, um poderia ter contado ao outro uma das suas aventuras, algo do tipo:

­­— Lucy, você tinha que ver, era só eu contra esse animal gigante, e quando ele veio pra cima de mim, eu tive a ideia de bater nele com este pedaço de osso bem aqui, olha só.

— Aham, sei.

— É serio, como você acha que eu consegui o jantar de hoje, no leilão?

— Está bem, vou acreditar. Agora vai lá e acende o fogo pra gente cozinhar ele.

— Acender o quê?


Ilustração de Michael Hagelberg

É claro que esta história não pode ser real, até porque naquela época os leilões não permitiam o sorteio de animais em seus lotes. Mas uma coisa é certa: quando contamos uma história, criamos laços psicológicos muito fortes com nossos leitores ou ouvintes.

Existe até um estudo conduzido por Paul Zak que afirma que ouvir ou ler uma histórias faz com que o cérebro libere oxitocina — sim, o famoso hormônio do amor — o que reforça os sentimentos de confiança e empatia. Tanto é que, para comprovar sua teoria, Zak convidou algumas pessoas para um experimento em que alguns assistiram a um vídeo com uma história emocionante, enquanto as outras não. Ao final do teste, as pessoas que viram o filme tendiam a ajudar muito mais as outras em um segundo momento da pesquisa.

Mas não vá pensando que todas histórias têm este poder, e muito menos que todas ouvintes reagem sempre com o mesmo comportamento. Afinal de contas cada pessoa, por mais parecida que possa ser, possui suas próprias experiências de vida, crenças, cultura, visão de mundo e mais uma infinidade de particularidades que devem ser levadas em consideração ao narrar seu “causo”.

Além disso, como sabemos, contar histórias é uma arte. E uma boa história, por menor que seja, deve ter obrigatoriamente, começo, meio e fim — parece óbvio, mas algumas pessoas ignoram completamente esta sequência quando vão escrever um texto ou contar algum acontecimento.

Quer um exemplo? Provavelmente você conhece alguém que se acha muito engraçado, mas não tem nenhum ritmo na sua narrativa e quase sempre acaba revelando o final da piada antes da hora. Acertei, né?

Voltando ao assunto, escrever uma história envolvente implica muito mais dedicação do que se possa imaginar. Você pode ter vivido uma experiência incrível que poderia fazer brilhar o olho de qualquer pessoa, mas se você não souber contá-la, o máximo que você vai conseguir é um “legal cara”. Mas da mesma maneira, com os elementos certos, um simples acontecimento pode virar uma grande aventura. Por exemplo:

“Ainda me lembro quando encarei o meu primeiro desafio. Na época, saltar de uma altura considerável só para provar pro meu irmão mais velho que era possível voar só com a ajuda de um guarda-chuvas, assim como nos desenhos animados, me pareceu uma proposta bem razoável.

Apesar das contusões, dos medicamentos, das broncas e das semanas de castigo, nunca vou esquecer daquele vento no rosto, da sensação de liberdade, do frio na barriga e finalmente do orgulho em ter alcançado o meu objetivo — e em seguida o chão, é claro.”

O que é bem diferente de:

“Quando tinha 7 anos fui desafiado por meu irmão a pular de uma árvore com um guarda-chuvas. Cai e fiquei de castigo um bom tempo, mas pelo menos aprendi a lição.”

Sem dúvidas, a primeira narrativa foi a que prendeu mais a sua atenção. Até porque ela possui mais detalhes e narra sentimentos e sensações que qualquer pessoa poderia ter na mesma situação.

Este mesmo princípio é muito utilizado por alguns líderes afim de motivar suas equipes. Discursos inspiradores são capazes de estimular as pessoas e influenciar melhorias para toda a empresa. Afinal de contas, uma história no momento certo pode não só reter a atenção de quem está ouvindo como também inspirar mudanças em seu comportamento.

Histórias não são contadas apenas com palavras. As marcas que o digam.

Da mesma maneira que a história da sua vida não pode ser compreendida apenas pela sua maneira de falar, por exemplo, a identidade, o propósito e a trajetória de uma marca não pode ser identificada apenas por algumas palavras, discursos ou manifestos.

Para contar suas histórias as marcas precisam de elementos visuais, auditivos e principalmente, aqueles que geram experiências para seus consumidores.

Até porque, uma história pode transcender o universo dos textos, ganhar formas, cores, movimento e pode, igualmente à escrita, estabelecer uma conexão emocional com o público a quem ela é dirigida.

E nisso, algumas marcas são especialistas:

A Apple, por exemplo, utiliza sempre um padrão fotográfico com fundo branco, com uma tipografia bem característica e até mesmo a nomenclatura dos seus produtos fazem com que cada mensagem seja facilmente associada à marca. O mesmo vale para o Airbnb, Uber, Google, que usam cada elemento de comunicação para refletir seus atributos, que são partes essenciais da sua história.


Anúncio característico da Apple

Enfim, não importa o formato em que estão sendo contadas, se as histórias carregarem sentimentos, elas serão capazes de criar fortes conexões emocionais que poderão, não apenas inspirar, mas também ecoar novos pensamentos, reflexões e por fim ações para as pessoas.

E aí, como você está contando suas histórias?

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