Ela tinha um incrível pleno emprego de seu talento.

– Você não vai acreditar!

– Ih… Lá vem…

– Estou eufórica, nunca me senti tão realizada!

– Então parabéns. Quer me contar ou é segredo?

– Estou no melhor hospital em demência mental do mundo, aqui nos Estados Unidos!

– Sabia que não era uma coisa normal…

– As mentes mais problemáticas do planeta estão aqui, pertinho de mim!

– Nossa, que legal, deve ser um lugar bastante animado. Você tá em férias?

– Sossega, vai. Além de tudo, estou tratando do paciente mais difícil de todos… Pensa num desafio grande…

Mariana é uma neurologista. Dessas puro sangue. Dessas médicas de verdade. Ou melhor, profissional de verdade. Você provavelmente conhece alguém assim, mas, convenhamos, não é a maioria. O texto das nossas conversas é geralmente divertido, mas nada pode ser mais revelador do que o subtexto.

O talento, quando fundido ao exercício constante e em meio a um ambiente propício, é o que Aristóteles chamou de eudaimonia, um conceito enviesadamente compreendido como felicidade. Para o pupilo de Platão, somente com a tríade virtude, hábito e contexto, uma pessoa poderia chegar a esse estado de plenitude do ser, de pleno desabrochar de suas aptidões, da presença de sua própria “genialidade”.

Não tenho a pretensão de tratar sobre os buracos dessa linha de pensamento, refilosofados muito tempo depois por Kant. Mas Mariana, essa neuro, tem a “sorte” de viver uma biografia com as três características. Coisa que a minoria da população tem, segundo o próprio Aristóteles.

Quantos jogadores de futebol que têm aptidão pra tocar violoncelo, ou qualquer outro talento, exceto jogar bola, você conhece? Provavelmente a maioria. Quantos nasceram pra isso, mas não se desenvolveram por falta de disciplina? Muitos. E quantos reúnem virtuosismo e treino, tornando-se geniais por muito tempo? Poucos. Fora os que têm um insuspeito talento, mas que nunca foram — e nunca serão — apresentados a uma bola.

Na nossa vida é mesma coisa — e aqui vai uma levíssima digressão: não diferencio vida pessoal de vida profissional, afinal, nossas escolhas profissionais foram feitas quando só tínhamos “vida pessoal” e, portanto, elas são parte de toda a biografia. O nosso dia a dia é cheio de indivíduos que, semiconscientes de si, ou inconscientes totais, culpam o ambiente pelas frustrações de suas insípidas vidas. Mas muita gente tem a oportunidade de viver intensamente sob a luz do que vieram fazer por aqui. E é sobre estas que falo.

Não há uma, mas inúmeras vantagens de se exercer constantemente aquilo que se tem talento. Falando em demência mental, até o mal de Alzheimer uma pessoa pode minimizar, segundo pesquisas que descobriram atividade de memória muito além do hipocampo, em gente que sofria desse mal. Daí foram verificar a biografia delas: a maioria era referência em suas atividades outrora, quando sãs. Elas tinham, enquanto doentes, incríveis lapsos de lucidez, pois desenvolveram o que chamam de memória relacional.

Os benefícios não param por aí. E não é preciso ser um expert para pensar sobre o quão diferente, pra melhor, cada atividade nossa poderia ser. E como o futuro, em uma visão ainda maior, poderá ser.

Outro dia, caminhando com a Mari no parque, ouvimos uma criança dizer pra mãe:

– Não quero estudar! Quem gosta de estudar?! Não conheço uma pessoa que gosta!

Eu e ela nos olhamos, estarrecidos. Não sei dela, mas o primeiro pensamento que tive foi: não quero um médico que comumente teve essa atitude na infância, cuidando de mim no futuro.

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