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Vida: aquilo que passa enquanto estamos olhando o celular

Não são raras as vezes em que estamos em uma roda de amigos ou em qualquer outra situação do nosso dia a dia e percebemos alguém com o olhar desviado para a tela de um smartphone. Cada vez mais as relações humanas estão sendo intermediadas ou interrompidas pelo uso destes aparelhos que, muitas vezes, fazem com que ignoremos completamente quem está a nossa volta.

Preocupados com este problema crescente na sociedade moderna, a agência de publicidade McCann — em parceria com o dicionário Macquarie Dictionary — reuniu em maio de 2012, na Universidade de Sydney, uma equipe de especialistas em linguagem para criar uma palavra que representasse este novo cenário.

Foram dias de estudo e pesquisas até chegarem na palavra Phubbing, que é a junção das palavras phone e snubbing, que significa: esnobar alguém através do uso do telefone. Rapidamente a nova palavra ganhou fama e discussão mundial devido ao lançamento da campanha Stop Phubbing, realizada pela própria McCann que, ao mesmo tempo que conscientizou milhares de pessoas ao redor do mundo sobre o assunto, alavancou as vendas do dicionário atualizado com a nova palavra.

Macquarie “Phubbing: A Word Is Born” — McCann Melbourne

O tema polêmico também foi abordado pelo renomado artista de rua, Banksy, em um de seus murais em Bristol, no Reino Unido (imagem título). A imagem representa a cena de um casal se abraçando, porém distraído com o uso dos seus celulares, sugerindo que as relações entre as pessoas estão sendo ameaçadas pelo uso excessivo dos dispositivos.

Recentemente a palavra voltou em cena com o vídeo Stop Phubbing Around, criado pela Coca-Cola no fim de 2014. Em parceria com a agência Memac Ogilvy Dubai, UAE, a empresa mostrou, de uma forma emocionante, o que perdemos quando damos mais atenção às redes sociais do que à vida real.

Stop phubbing around — Coca-Cola

Os apelos de stop phubbing podem realmente tomar dimensões comoventes, mas não podemos esquecer o quanto a tecnologia dos smartphones nos trouxe benefícios fantásticos, e ironicamente, um conceito diferente de proximidade: poder falar diariamente com uma pessoa especial que agora reside no exterior, se atualizar constantemente das atividades de nossa família inteira ou até mesmo acompanhar na íntegra as viagens de amigos pelo mundo.

Colocando tudo em uma balança, a questão do equilíbrio sempre volta à tona: será que realmente não estamos dando mais tanta importância ao mundo a nossa volta? Se for mesmo, isso não é carma exclusivo de poucos, muito menos um problema com você (…) só um minutinho (…)

Me desculpem, era uma mensagem importante.

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Ela tinha um incrível pleno emprego de seu talento.

– Você não vai acreditar!

– Ih… Lá vem…

– Estou eufórica, nunca me senti tão realizada!

– Então parabéns. Quer me contar ou é segredo?

– Estou no melhor hospital em demência mental do mundo, aqui nos Estados Unidos!

– Sabia que não era uma coisa normal…

– As mentes mais problemáticas do planeta estão aqui, pertinho de mim!

– Nossa, que legal, deve ser um lugar bastante animado. Você tá em férias?

– Sossega, vai. Além de tudo, estou tratando do paciente mais difícil de todos… Pensa num desafio grande…

Mariana é uma neurologista. Dessas puro sangue. Dessas médicas de verdade. Ou melhor, profissional de verdade. Você provavelmente conhece alguém assim, mas, convenhamos, não é a maioria. O texto das nossas conversas é geralmente divertido, mas nada pode ser mais revelador do que o subtexto.

O talento, quando fundido ao exercício constante e em meio a um ambiente propício, é o que Aristóteles chamou de eudaimonia, um conceito enviesadamente compreendido como felicidade. Para o pupilo de Platão, somente com a tríade virtude, hábito e contexto, uma pessoa poderia chegar a esse estado de plenitude do ser, de pleno desabrochar de suas aptidões, da presença de sua própria “genialidade”.

Não tenho a pretensão de tratar sobre os buracos dessa linha de pensamento, refilosofados muito tempo depois por Kant. Mas Mariana, essa neuro, tem a “sorte” de viver uma biografia com as três características. Coisa que a minoria da população tem, segundo o próprio Aristóteles.

Quantos jogadores de futebol que têm aptidão pra tocar violoncelo, ou qualquer outro talento, exceto jogar bola, você conhece? Provavelmente a maioria. Quantos nasceram pra isso, mas não se desenvolveram por falta de disciplina? Muitos. E quantos reúnem virtuosismo e treino, tornando-se geniais por muito tempo? Poucos. Fora os que têm um insuspeito talento, mas que nunca foram — e nunca serão — apresentados a uma bola.

Na nossa vida é mesma coisa — e aqui vai uma levíssima digressão: não diferencio vida pessoal de vida profissional, afinal, nossas escolhas profissionais foram feitas quando só tínhamos “vida pessoal” e, portanto, elas são parte de toda a biografia. O nosso dia a dia é cheio de indivíduos que, semiconscientes de si, ou inconscientes totais, culpam o ambiente pelas frustrações de suas insípidas vidas. Mas muita gente tem a oportunidade de viver intensamente sob a luz do que vieram fazer por aqui. E é sobre estas que falo.

Não há uma, mas inúmeras vantagens de se exercer constantemente aquilo que se tem talento. Falando em demência mental, até o mal de Alzheimer uma pessoa pode minimizar, segundo pesquisas que descobriram atividade de memória muito além do hipocampo, em gente que sofria desse mal. Daí foram verificar a biografia delas: a maioria era referência em suas atividades outrora, quando sãs. Elas tinham, enquanto doentes, incríveis lapsos de lucidez, pois desenvolveram o que chamam de memória relacional.

Os benefícios não param por aí. E não é preciso ser um expert para pensar sobre o quão diferente, pra melhor, cada atividade nossa poderia ser. E como o futuro, em uma visão ainda maior, poderá ser.

Outro dia, caminhando com a Mari no parque, ouvimos uma criança dizer pra mãe:

– Não quero estudar! Quem gosta de estudar?! Não conheço uma pessoa que gosta!

Eu e ela nos olhamos, estarrecidos. Não sei dela, mas o primeiro pensamento que tive foi: não quero um médico que comumente teve essa atitude na infância, cuidando de mim no futuro.

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Pudores matam mais vida que ímpetos.

– Você escreve muito difícil.

– Quer dizer prolixo ou erudito?

– Tá vendo?! Vamos fazer assim: sempre que estiver comigo, cada palavrão que você falar, me paga 10 reais, pode ser?

– Dá alguns exemplos de palavrões que esta criança aqui não vai poder falar…

– Zeitgeist. Epistemologia. Hermética. Idiossincrasias. Preconizavam.

– Hum.

– Topa ou não?

– Topo. Se bem que é mais fácil o João Gordo sofrer de anorexia ou o Mar Morto ressuscitar.

– Tá cheirando o que aí nesse livro?

– Acabei de ler. É um pensamento básico sobre a ética da ação.

– Sei… Me conta…

– Diz que nossas ações podem ser pensadas de duas formas: absolutista ou consequencialista.

– E qual é a certa?

– Aí é que tá. Não existe uma resposta.

– Tenta explicar, sem me pagar nada, a diferença entre essas duas coisas.

– Absolutista é alguém movido apenas por suas convicções, seus princípios, não importando as transformações que essas atitudes fazem ao seu redor.

– Alguém que tá cagando pros outros, é isso?

– Exato, isso também. E consequencialista é alguém preocupado apenas com o resultado do que faz, não importando o ato em si, mas o que acontece depois.

– Você disse apenas. Tem como ser “apenas” uma coisa?

– Acho que não, né? É por isso que não existe certo ou errado.

– Lembrei daquela frase do Pequeno Príncipe.

– “Você é eternamente responsável por aquilo que…”

– Essa! Ele não queria ser responsável, pois não tinha feito “nada” para cativar, estava sendo ele mesmo… Absolutista.

– É… Acho que não dá pra ser uma coisa ou outra, mas as pessoas — e as empresas, têm tendências. Se não se preocupam com o que vai acontecer, acabam tendo graves transtornos sociais. Se só se preocupam com os resultados, acabam por reprimir seus desejos de uma forma muito forte.

– E qual a minha tendência?

– Inconsequencialista.

– Ha-ha-ha.

– Uma empresa preocupada apenas com as metas financeiras, pode perder seus valores essenciais.

– Consequencialista.

– E uma organização focada apenas em seus princípios, sem considerar o ambiente…

– Absolutista, pode falir.

– Isso… Mesma coisa com pessoas.

– O absolutista sempre tem razão. Tipo àquela gente que vai pra outro Estado do Brasil e acha que lá existe sotaque, mas que ela mesma não tem um.

– Ou o consequencialista, que prefere ser aquela metamorfose ambulante, sem opinião própria.

– Podemos dizer então que a maioria das pessoas e empresas estão na tendência de focar em metas, resultados, no que os outros vão pensar, como vão reagir, sendo guiadas muito mais pelas consequências que querem gerar?

– Mas que bela explicação, querida! Eu acho que sim, mas não tenho certeza.

– Tampouco seria legal se todos seguissem seus próprios valores, sem considerar os outros, pois nossas crenças não são universais…

– Caramba, estou tendo uma aula aqui…

– Digamos que você fosse um cara equilibrado, bem imaginativamente falando, e tivesse que escolher tender pra um lado? Que lado seria?

– Acho que o das crenças, absolutista. Mas, na minha opinião, o mundo é um constante exercício de empatia, um infinito movimento de acordos, onde fazemos a intersecção entre os nossos valores, o ambiente e os valores dos outros.

– Concordo. Eu também tenderia, acho que mais fortemente que você, pra um modelo mais passional.

– Como assim?

– Sou mais impulsiva. Cairia pro lado de ser as minhas crenças, por mais distorcidas que sejam. Se eu for relativizar tudo, acabo por não viver a minha história pessoal, mas a biografia de alguém genérica.

– Gostei… Acho que este texto já dá um caldo. Vou publicar.

– Que texto? Você não tá escrevendo nada…

– Esta conversa, vou transcrever.

– Eita! Me dá os créditos, ok?

– Tá.

– Que título você vai colocar?

– Tava pensando em algo como “A dialética da ação”.

– Tá de brincadeira, né?

– Não… Rs… Mas então me dá uma ideia…

– Sei lá… Algo como “o medinho de agir que nos mata devagarzinho”… Afinal, esse livro não é sobre agir, ação? Você tem talento pra escrever algo que dê pra entender, faz uma força, vai…

– Tá, e quanto eu te devo pelos palavrões?

– Até que não deve tanto, mas depois te passo a conta.

– Vê lá, quando voltar, se aprova o texto.

– Tá. Beijos.

– Beijos.

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Nenhuma outra pessoa do mundo tinha esse dom. Não como ele.

Ele tinha o peculiar dom de futurizar jeitos que, num começo de namoro em meio à paixão avassaladora, pareciam fofos, mas que na verdade preconizavam idiossincrasias, isso mesmo, idiossincrasias, horripilantemente repugnantes para o amanhã.

No começo de uma relação, ela era sempre obstinada. Após três meses ou dez anos, dependendo do grau de ingenuidade que ele depositava, teimosa. Mesma coisa para carinhosa e pegajosa, alegre e espaçosa, disciplinada e obsessiva, compreensiva e passiva, trabalhadora e neurótica, inteligente e presunçosa, parecida com a mãe e parecida com a sogra-gorda. Nada passava em branco aos olhos dele. Era como aquele gráfico do ciclo de vida de um produto: lançamento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Ele era especialista em enxergar o declínio antes de qualquer outra pessoa. Para ele, tudo ficava obsoleto, tudo era transitório e, por isso mesmo, nada valia a pena, o esforço, o investimento.

Com o tempo, passou a usar o livre-arbítrio para desescolher em absolutamente todas as ocasiões. Escolhia só que não. Começava terminando. Fez, sem concluir, pós-graduação em todas as ciências e paródias de ciências que tinham como premissas catalogar o passado para prever o futuro. Tornou-se Master Coach Trainner Honoris Causa em futurizar qualquer tipo de coisa. Aquele dom, que havia começado nas relações interpessoais, expandiu-se para a mais ampla variedade do conhecimento humano, de economia à medicina.

Muito mais que um profissional altamente capacitado, que garantia qualidade irrefutável de seus prognósticos, seu network, sua fama e sua credibilidade cresciam em progressão geométrica. Em poucos anos, sua figura tornou-se mítica. Guru era uma palavra insuficiente para designar um ser humano com tamanho talento para ajudar tanta gente a melhorar suas vidas, evitando que seres comuns fizessem escolhas erradas.

– Essa pessoa vai te causar momentos de insegurança.

– Como assim?

– Não vejo certezas absolutas nesse relacionamento, olhando de uma perspectiva maior.

– Então, o que eu faço?

– Melhor esperar.

Era sempre melhor esperar. Para ele, o não-ato de esperar provava quanto uma pessoa era superior, sendo capaz de sobrepujar seus sentimentos e ambições através da crítica de uma razão pura, parafraseando, não por acaso, Kant. Crise? Era melhor esperar. Afinal, alguém totalmente desprovido de racionalidade iria fazer algo e, muito quiçá, algo talvez poderia melhorar. Daí você começaria seu movimento, na total, plena e hermética segurança.

Assim, sua epistemologia do amanhã desmovimentou toda uma nação. E através de milhares, senão milhões, de desescolhas, viu-se um país inteiro de melhores esperando, confiantes irredutíveis em um futuro melhor, que aconteceria independentemente de cada um deles. Formaram-se então os melhores expectadores da vida, críticos eruditíssimos do teatro da existência humana, torcedores frenéticos do amanhã. Que torciam para o tempo passar mais rápido. Que ansiavam desesperadamente pelo que estaria por vir. Que, sem perceber, aceleravam suas vidas para o que toda vida leva.

Ele, enfim, em seu leito derradeiro, o médico perguntou:

– Cremado ou enterrado?

– Posso desescolher passar desta pra uma melhor?

– Não.

– Então tanto faz.

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Estamos acostumados a questionar derrotas, já as vitórias são apenas celebradas.

O que você faria se fosse promovido agora mesmo, com um salário cinco vezes maior? O que faria se estivesse, neste exato momento, no auge de sua forma física e saúde? E se estivesse apaixonado, tendo a real possibilidade de consumar o desejo de sua paixão?

As respostas parecem bastante óbvias, e são. Afinal, a realidade tem um incomensurável (perdão pela palavra) poder de subjugar o mais atlético, treinado, experiente, calejado, forte e resiliente cérebro. Temos a irresistível tendência de refutar o movimento de entropia, caótico, nos apegando a tudo o que é (ou nos parece) sintrópico, harmonioso, confortável.

É claro que há algumas, senão várias, explicações para tal atitude conservadora. Uma delas é que, ao economizarmos energia, evitamos o desgaste físico e, consequentemente, retardamos o envelhecimento e a morte. Pura preservação da espécie. Mas uma de que gosto diz que as alegrias são mais raras que as tristezas. Que as vitórias são construídas, conquistadas. Já as derrotas são simplesmente notificadas, avisadas. Afinal de contas ninguém em sã consciência, derrotado por uma doença, ou por um desemprego, estava lutando para tal, mas sim por algo alegrador, regozijante, satisfatório. A derrota é um viés inserido no caminho da vitória.

O problema é que nosso cérebro, basal, tem uma enorme capacidade de se adaptar e não faz a menor ideia do que é bom ou ruim, em termos de realidade. Juízo de valor não faz parte de seu hardware original, de seu código genético. Ninguém nasce sabendo filosofia, ética ou recitando a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Feliz e infelizmente, essa capacidade encefálica de se adaptar a diferentes situações (independentemente de boas ou ruins) continua com e apesar de nossas décadas de estudo. Chamada de neuroplasticidade (potencial neuronal que temos de rearranjar nossas sinapses de acordo com novas e frequentes situações), ela é anterior à consciência. É o pressuposto de nossas escolhas. É ela que diz o que é alegria ou tristeza, em seu infinito particular, recheado de instintos básicos animais, traumas de primeira infância e muito mais.

O que explicaria, por exemplo, o caso de Patty Hearst? Sim, a neta de William Hearst, magnata americano das comunicações, que inspirou Orson Welles a fazer Cidadão Kane. Ela foi sequestrada aos 20 anos, sofreu uma espécie de lavagem cerebral, mudou de nome, começou a assaltar bancos e idolatrar seus algozes. Diagnosticada como com Síndrome de Estocolmo, que é quando a sequestrada se apaixona pelo sequestrador, ela depois foi presa, se recuperou e está viva até hoje.

O que explicaria melhor fanatismos, idolatrias, apegos, obsessões, unanimidades e, em última análise, o pequeno prazer que sentimos em nossa singela rotina, senão uma neuroadaptação inconsciente para mantermos nosso conforto, status, segurança e até a nossa vida? Se é verdade que o Ser Humano nasce animal e torna-se Humano, como disse Jean Piaget, quem disse que nos tornamos Seres Humanos Universais, com uma percepção ampliada da realidade? Como potencializar nossa neuroplasticidade, melhorando as decisões através de uma visão maximizada de cada contexto?

Sempre que vejo meu feed de notícias do Facebook ou a página inicial do Youtube, lembro da semelhança que existe entre esse algoritmo que seleciona essas informações e as nossas escolhas, na vida, que formam as conexões neurais e o que nós chamamos de realidade. A lógica dessas bolhas são exatamente as mesmas. Ambas reforçam muito mais o que fomos ontem do que abrem possibilidades para sermos melhores amanhã. Para sair do algoritmo, você acessa a internet com conta anônima através de um VPN, daí verá muitas diferentes notícias. Na vida, basta fazermos escolhas diferentes do padrão comum, especialmente nas alegrias. Pois as tristezas não nos dão muitas alternativas.

Cinco vezes a mais de salário por mês. Trocaria de carro? De casa? Viajaria pro exterior? Todo mundo faria algo do tipo. E não é errado. Mas que outro momento de carreira seria tão perfeito para fortalecer seu network, abrindo sua agenda para oportunidades de relações a longo prazo? No desemprego? Na estagnação?

Que outro momento, senão na saúde plena, você teria mais possibilidades de descobrir e estar ainda melhor? Pois na doença você só tem uma opção de saúde: a cura. Só na saúde você tem o potencial de criar conexões neurais que te possibilitem enxergar muito mais sobre o que é estar realmente bem.

Em qual outra situação, senão na paixonite inebriante, você teria maior energia, vigor e alegria para pulverizar a sua felicidade, no sentido de estreitar suas diversas relações pessoais? Na separação? Na dor de cotovelo? Na deprê?

Lembre-se de que, geralmente, as alegrias são conquistadas e, as dores, avisadas, notificadas. E não é nada pessoal, é Zeitgeist. E é por isso que residem nas alegrias as verdadeiras oportunidades que não queremos ver. Devemos não apenas desfrutar delas, mas explorá-las, questioná-las, dissecá-las. Estamos acostumados a questionar derrotas, já as vitórias são apenas celebradas. Pois é no sucesso, na felicidade, no vigor, na energia, no entusiasmo, na paixão, na juventude, no poder, no desejo, na riqueza, na ambição e no propósito que temos as melhores condições de multiplicar nossas opções de escolhas, tornando-as mais relevantes, consistentes e adequadas. Afinal de contas, quem tem uma opção não tem opção. Quem tem duas, tem um dilema. Só se começa a vislumbrar um livre arbítrio genuíno, um poder real de decisão, a partir de três caminhos.

Schopenhauer, filósofo alemão do século 19, costumava dizer que “todo homem considera os limites do seu campo de visão como os limites do mundo”. Um conceito tão coeso que poderia ser institucionalizado como uma Lei da Natureza Humana. Mas, se é verdade que temos limites em nosso campo de visão, ninguém disse que não podemos ampliá-los.

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Weme Experience Espanha O paraíso cosmopolita de Barcelona

Vista da janela do avião a cidade é muito iluminada. Muito iluminada mesmo, dá pra perceber melhor ainda quando se está quase aterrissando. São dez horas da noite. É impressionante ver a diversidade cultural das pessoas dentro do ônibus que leva do aeroporto pro centro. É gente de todo tipo: é a americana perdida com o mapa na entrada do metrô, é o tipo sueco com calças e sandálias hippie sorrindo pra tudo o que vê, é o cara todo tatuado procurando um lugar pra carregar o seu iPhone, são os pais de estilo clássico com a criança que passa pelo colo de todos os passageiros, sou eu perguntando em “portanhol” pra que lado devo ir pra chegar até a Sagrada Família: -“Tanto faz. Pode seguir em frente ou virar à direita. Uma hora você vai se deparar com ela.”


Viela localizada na divisa entre o Eixample e o Barri Gòtic.

Sinal errado. É quase impossível visualizar a catedral a noite no meio de tantas árvores altas que povoam o distrito de Eixample. Vou seguindo as anotações com nomes de rua do meu moleskine, passando pelos bares e bistrôs que sempre têm ao menos uma mesa com gente pra fora ainda. Depois de andar muito, finalmente passo por uma Sagrada Família bem discreta em meio à escuridão, como se tivesse repousando pra aguentar a bateria de visitas do dia seguinte, e chego no hostel pra tomar uma ducha e dormir direto. Já tinha perguntado quais lugares eu não podia deixar de visitar pra Gabriela e acordo cedo pra pegar um metrô direto pra Barceloneta. Vou descendo devagar encantado pelo bairro de ruas planas, estreitas, cheio de roupas e flores nas suas janelas. Paro pra tomar um café na praça que leva o mesmo nome da região, localizada em frente à Parroquia de Sant Miquel del Port, e pelo tipo do casal de japoneses que sentam-se na minha frente, vestidos com seus paletós e tênis coloridos de cano longo, já começo a notar um clima de desapego — o primeiro dos atributos que identifico por aqui.


Praia de Barceloneta com o bairro de mesmo nome ao fundo.


Vista de baixo do Arc de Triomf.

Desapego por não se importar se as pessoas vão pensar que você é assim ou assado só pelo jeito que se veste ou pelo modo que penteia o cabelo. Na praia, que fica logo à frente do bairro, tem mulheres fazendo topless, tiozões boiando no mar, casais tomando cerveja no meio das pedras. Dobro umas três vezes a barra da calça e vou o até onde consigo pra dentro d’água também. Seguindo pela calçada que beira a orla, agora com metade da roupa molhada mas com coragem pra continuar o trecho sem camiseta, a imagem de um Rio de Janeiro modernizado me vem na cabeça. É o trânsito, são as bicicletas, as pessoas praticando corrida e andando com seus cães. A paisagem descolada é composta por uma arquitetura admirável de fundo, o arco do W Barcelona, o prédio do Parc de Recerca Biomèdica, a escultura em forma de peixe do Frank Gehry. Subo pelo Carrer de la Marina até o Arc de Triomf, cruzo por turistas, gente de todo tipo, um desses caras que fazem bolhas de sabão gigantes e chego até a Plaça Universitat pra ativar o wi-fi, almoçar algo e tomar uma coca no lugar da “copa” de cerveja que tentei pedir.


Fachada do prédio do Parc de Recerca Biomèdica de Barcelona.


Espaço externo do Palau de Sant Jordi.

Desço pra pegar um metrô em direção ao Montjuic e descobrir um dos cantos mais incríveis que já me enfiei. O Palau de Sant Jordi é uma das obras construídas para as olimpíadas de 1992, e a sua planta externa tem qualquer coisa inspirada pela disposição do espaço do Palais du Versailles ou do Taj Mahal. Visualmente não há nada de tão especial nos seus detalhes, mas o equilíbrio dos elementos arquitetônicos dão a impressão de impactar diretamente o estado de espírito de quem tá lá presente. Sozinho em um de seus bancos de fundo, tenho a sensação de encontrar um daqueles lugares únicos que dão um reset na nossa mente. Por um instante parece que o corpo, a memória e as coordenadas físicas estão perfeitamente alinhados. Nessa hora dá pra sacar que o processo de individuação está um passo adiante do individualismo. Pra alcançá-lo, é necessária muita luta solitária, porém o seu estalo se dá justamente em um momento de plenitude, quando não importa mais com quem e onde se está. É assim que passo do ponto de individuação, o atributo de relacionamento da cidade, pra multiplicidade, o seu atributo filosófico.


Os corredores do Mercado La Boqueria.


As vielas do El Raval.

Pego o metrô de volta à Catalunya pra descer até o Mercado La Boqueria, onde a “máfia” daqui se senta no final da tarde pra tomar chopp em meio a um cenário repleto de e carnes e queijos dependurados. Saio pelos fundos e me meto nas vielas sombrias do Raval, que exibe os seus lustres característicos contra o céu aberto e seus moradores esquivos entrando por portas que sabe-se lá pra onde levam. A multiplicidade que a cidade te força a vivenciar fica mais evidente quando cai a noite nos arredores da Rambla. Depois de passar pelo ponto de gravitação de Barcelona, a entrada do Palau Nacional — uma espécie de miradouro pra Plaça Espanya com o Park Guell ao fundo — vou pro hostel e tomo força pra última parte da minha visita à Ciudad Condal. De volta ao centro, a movimentação de pessoas tá no seu auge. Encostado na mureta da entrada do metrô, assisto aos Top Manta subirem a escadaria com as suas trouxas de bolsas e começarem a vender o máximo de falsificações possíveis antes da polícia confisca-los. Outros personagens singulares são os que se misturam àqueles que abordam turistas pra oferecer restaurantes e hotéis, e fico tentando fitar o jeito que se mexem pra ver se não são estes os famosos carteiristas. Mas o que mais me chama atenção no meio disso tudo são as gangues de norte-americanos ítalo-descendentes, com penteados de filmes do Scorcese e enormes correntes de ouro em volta do pescoço. O comportamento dos “donos da rua” é tão peculiar e expansivo que chega a intimidar os pedestres, mas mesmo assim tento me misturar um pouco a eles pra sacar como é que funciona o calçadão visto a partir dos olhos de um falso gângster.


As obras intermináveis da Catedral de la Sagrada Família.

“Barcelona é uma festa”, diria a Gabriela adaptando o título traduzido do clássico “Moveable Feast”, que o Hemingway dedicou à Paris. Pra mim parece isso mesmo, uma festa em meio a um grande parque de diversões. A imagem da cidade é colorida, um mosaico como aqueles do Gaudí no Park Guell — justamente um dos lugares que não tive tempo de visitar. O tom de voz é múltiplo, poliglota. Timbres de canto polifônico entoado por todas as línguas que aqui habitam, com uma melodia circense ao fundo numa destas composições que o Nino Rota faria pra um filme do Fellini. Depois de voltar da Ciudad Condal, dediquei ainda mais atenção na importância de afirmar cada fase do que passou, cada coisa que já ouvi, assisti, experenciei, como um modo de alimentar a individualidade. Não se trata de viver do passado. É mais uma questão de deixar todos os caminhos abertos pra poder voltar, avançar e se multiplicar sobre cada oportunidade que a vida apontar, sobre cada lance de acaso que ela criar.

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Weme Experience Portugal Lisboa e o descobrimento da abstração

Desço na estação Santa Apolônia morrendo de fome, e já me enfio em um dos primeiros botecos que vou com a cara. Peço um prego, um sanduíche português bem simples e bom com queijo e mignon. Não dá pra sentar lá dentro, é só pra quem vai pedir almoço mesmo. O sol tá de rachar, mas acabo arrumando um canto com sombra em uma das mesas compartilhadas lá de fora. Sentam-se ao meu lado um senhor português, de paletó bege claro e com tipo intelectual, e uma coroa norte americana, toda de preto e no estilo atriz cinquentona. Ele começa a discursar sobre a história dos navegadores e sobre o poder que o seu país possuía a pouco mais de cinco séculos atrás, enquanto ela me elogiava a cidade de São Paulo, a beleza da mulher brasileira, e se queixava da dificuldade de se fazer entender na sua última estadia no Brasil: “-todos não paravam de me olhar, como se eu fosse uma estrela de cinema ou algo do tipo, mas no meio disso tudo eu não conseguia pedir sequer algo pra comer.”


Arco da Rua Augusta, visto da Praça do Comércio.


Entrada da Rua dos Sapateiros.

O tom esquizo da conversa do almoço e o longo percurso que tenho que percorrer na luz do meio-dia pra chegar até a Praça do Comércio, porta para o centro de Lisboa, começa a criar uma impressão de distanciamento da cidade pra mim. Este atributo fica ainda mais claro quando passo a andar em círculos na praça, sem ter lugar pra me esconder do sol, até eu decidir não pegar ônibus nem metrô nem bonde nenhum e subir direto pela Augusta, que na minha imaginação devia ter sido a primeira e principal rua de trocas de mercadoria vindas de embarcação pro velho mundo — fato que não consegui comprovar até agora. Mas é só ver os nomes das suas vias paralelas, que prestam homenagem às atividades que lhe eram vitais nos seus primórdios, pra ter uma noção da história que ela tem: Rua da Prata, dos Sapateiros, Correeiros, Douradores, Fanqueiros…


Chafariz da Praça do Rossio.


Rua Bernardino Costa, logo atrás do Cais do Sodré.

O final da Augusta desemboca na Praça Dom Pedro IV, mais conhecida pelo nome de Rossio, e fico ali um tempo absorvido pela abertura que ela provoca bem no miolo do centro urbano. Porém a relação de distância com a minha anfitriã faz com que eu não confie no acaso das suas subidas, e tomo o sentido oposto ao Bairro Alto. Sigo a Conceição – mesmo nome da rua na qual passei a morar pela primeira vez sozinho – atravesso a Catedral da Sé e chego até o Miradouro de Santa Luzia. Quando começo a sacar este pequeno pedaço de estilo mediterrâneo no meio da cidade, com turistas e habitantes da região tomando ar, molhando os seus pés na piscina baixa, aproveitando o sol do meio da tarde, a sensação de renovação começa a acompanhar a minha visita à Lisboa.


Piscina do Miradouro de Santa Luzia.


A Alfama vista do Miradouro.

É de cima do Miradouro que tenho uma visão clara do Tejo e da extensão que mais iria marcar o meu dia na Cidade das Sete Colinas, a Alfama. Renovado, desço novamente até a Praça do Comércio pra pegar um trem até Belém e provar os famosos pastéis que levam o nome da região. Antes, passo pelo Terreiro do Paço pra sacar a onda das pessoas que ficam um tempo sentadas nas escadas do Cais das Colunas. Dá pra perder um bom tempo imaginando se alguns dos nossos antepassados saíram dali mesmo, quem partiu, quem ficou; como a nossa história começou e qual era a dimensão da loucura de se lançar daquele ponto.


Monumento do Padrão dos Descobrimentos.

Em Belém, dá pra pensar nisso de uma forma mais monumental quando se está de frente pra Rosa dos Ventos e pro Padrão dos Descobrimentos. É com essa memória meio abstraída que eu saio de lá, passo novamente pelo centro da cidade e caio quase sem querer dentro da Alfama. A idéia era cortar pelo bairro, mas não de se perder. O lance é que quanto mais eu acreditava chegar perto da Santa Apolônia e tomar o destino de volta pra casa, mais as ruas ficavam estreitas, menos pessoas se mostravam, e o caminho ia parecendo cada vez menos ter sentido. Cachorros vira-lata andando solitários, ruas sem saída, crianças gritando pra turistas ingleses, bifurcações, casais brigando na garupa da moto, esquinas vazias, muitas roupas estendidas nas sacadas, velhos na frente de casa, ladeiras, alemães tomando vinho e… a estação de trem.


O Padrão dos Descobrimentos voltado pra saída do Tejo.

Como é fato, a parte da viagem que mais me marcou foi a única que não consegui e nem mesmo pensei em tirar uma foto sequer. Ela deixou algo inalcançável na minha memória, algo que eu só consigo chegar perto novamente se fechar os olhos e tentar me lembrar das imagens reais que deixou na minha cabeça. Imagens que mudam de forma e de cor a cada tentativa de reve-las, que evoluem a cada novo souvenir que coleciono ao tentar encontra-las. A minha maior experiência em Lisboa foi perder-me por alguns minutos na Alfama. E sem dúvidas, o atributo mais fascinante desta cidade pro seu visitante de uma só tarde foi a sua capacidade de jogar com a abstração.

Retratar a imagem de Lisboa como um labirinto seria um pouco simplista demais. Ela parece mais um aglomerado de formas em laranja e branco, com um céu muito claro ao fundo e com frestas entornadas contra o azul do Tejo. A sua voz é longínqua, piedosa, idêntica àquela entoada pelas grandes cantoras de fado. Inevitável não lembrar do Lisbon Story do Wim Wenders. O longa metragem narra a história de um engenheiro de áudio — Phillip Winter — que é convocado por seu amigo cineasta para completar um filme inacabado sobre Lisboa. Chegando em Portugal, tudo o que Winter encontra são incontáveis trechos de película capturados sem qualquer linearidade, somando inúmeras impressões da cidade a partir do ponto de vista do amigo diretor. O engenheiro sai na busca de capturar cada som relativo aos ambientes impressos nas imagens, e uma cidade deslumbrante passa a se revelar diante dos seus olhos.

Trechos da Alfama retirados do filme Lisbon Story.

De uma maneira bem mais elaborada, Winter acaba passando por uma progressão muito parecida com a sequência dos atributos que identifiquei na minha experiência por aqui — distanciamento, renovação, abstração — me levando a constatar o quanto é possível renovar o entendimento de branding ao se lançar em uma grande e bela cidade, e que o cinema autoral pode ensinar muito mais do que eu podia imaginar pro entendimento e aprofundamento de experiências de marca.

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Weme Experience Portugal O Porto e a permanência do nostálgico

Entro no trem e logo noto que está lotado de crianças saindo pra excursão. Tento mudar de vagão uma, duas, três vezes. Em vão. O jeito é colocar os fones de ouvido e esperar chegar o destino. Ponho o som de um DJ set da Björk, que entre outras faixas malucas, tem um mix do Fado Minh’alma da Mariza e de um Dubstep — Quartz — do produtor Britânico Bloom. A fusão disso tudo chega quase a dar nó no cérebro, e quando vejo a primeira imagem do rio Douro pela janela, já começo a me ligar no ambiente de encanto no qual o Porto te envolve, principalmente se você tá caindo por aqui pela primeira vez.


Vias perpendiculares à Praça da Liberdade.

Depois de uma passada rápida pelo prédio da Casa da Música, um dos ícones da arquitetura pós-moderna da cidade, desço na estação da Trinidade e dou de cara com a Avenida dos Aliados, uma espécie de boulevard com um grande espaço de convivência no centro, voltado pra contemplação das clássicas fachadas européias que rodeiam o seu quarteirão. Aqui o atributo de encantamento se escancara: o simples fato de se estar no meio da Praça da Liberdade e, o prenúncio do que mais poderemos encontrar ao entrar em qualquer uma de suas vias, chega a paralisar os sentidos.


Praça da Liberdade, com a Avenida dos Aliados cortando seus dois lados e o monumento à Dom Pedro IV no centro (Pedro I no Brasil).


O Morro da Sé, visto de cima da Catedral.

Subo a rua íngreme da altíssima Torre dos Clérigos, seguindo a montagem de janelas, sacadas, azulejos e pichações que formam um tipo de mosaico urbano contra o céu limpo. Na descida, em uma das calçadas do centro, peço uma francesinha pro desjejum. As duas fatias de pão de forma com queijo, vários tipos de carne e com molho picante fazem parte da culinária tradicional da cidade. A caminhada continua até a Catedral da Sé e começo a ver de cima o morro formado pelas casas em volta. O seu aspecto é simples, com roupas estendidas nas sacadas, som de música e conversa alta, uns vagabundos dando rolê em volta dos bares. Quando finalmente cruzo a Ponte Dom Luís I e caio no Mosteiro da Serra do Pilar, já do lado de Gaia, fico paralisado pela dimensão da beleza daqui. Olhando pra baixo, pro Rio Douro, chega a dar a impressão de se poder pegar a cidade com as mãos: puxar cada trem, empurrar cada navio, mover cada ponto de multidão. A vontade é de permanecer ali, vendo a composição constante da cena, observando a movimentação incessante de cada ponto, cada bloco dela. Por um momento parece que é possível ficar ali parado durante uma vida toda sem se aborrecer.

A permanência é um atributo marcante do Porto. Tem a ver com o jeito que ele preserva não só a sua história e arquitetura, mas principalmente o seu estado de espírito. Tem a ver com a vontade de querer ficar por aqui mesmo; talvez um pouco pela óbvia identidade que temos com o povo português, talvez por um impulso de voltar à terra de onde partiram nossos antepassados. Mas o fato é que até a luz do fim da tarde parece querer permanecer aqui. É uma cidade que abriga a alma do mesmo modo que abriga as suas construções, monumentos e habitantes.


Vista do Rio Douro na margem do Cais da Ribeira.

Desço o caminho de volta, passo pela Rua das Flores, a histórica via de expansão comercial daqui, até chegar enfim às construções portuárias da beira do Douro, onde ficam estocados e são servidos os melhores vinhos de Portugal. Agora o pôr do sol está em seu auge, e a retina quase chega a vitrificar o movimento do rio contra as docas, o reflexo da luz amarelada nos lustres. Começo a me lembrar de uma época em que nem mesmo vivi, a trazer imagens na memória de coisas que até então não conhecia. Começo a me ligar de que a nostalgia só pode ser o principal atributo da Cidade Invicta.


Cais da Ribeira visto de cima da Ponte D. Luís I.

Essa mesma nostalgia me leva de volta pra uma das partes mais marcantes da minha infância: a construção de grandes cidades de Lego. Se eu tivesse que criar um retrato para a cidade do Porto, ele seria cubista, inteiro montado por peças de memória visual. Sua imagem se formaria por blocos e sua voz se manifestaria por legendas de foto, aquelas feitas de uma forma bem aleatória em algum lugar do passado por alguém da família. Depois de me aprofundar pela região e olhando agora pra marca oficial da cidade, vencedora de alguns dos maiores prêmios de design mundiais, fica ainda mais clara pra mim a minuciosidade do processo do branding.

Apresentação da marca oficial da cidade do Porto.

O entendimento do contexto histórico, a empatia pela cultura local, e as experiências que vivi ao longo de um único dia — encanto, permanência e nostalgia — me levaram a alguns passos anteriores ao conceito de marca já implementado pelo White Studio; pequenos blocos de memória icônica da cidade, que formam mosaicos inspirados pelas tradicionais telas portuguesas pintadas de azul sobre azulejos. Um trabalho que só pode ser criado por quem entende e ama este lugar. Uma marca que, a fim de se apresentar, não precisa dizer mais nada além do seu nome: Porto.

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Weme Experience Portugal A sereníssima cidade de Aveiro

Saindo pela entrada principal da recém inaugurada clínica do meu irmão -até então só tinha olhado pra tudo de dentro de janelas de aviões e carros – recebo logo um vento aberto e gelado na cara. Poucas pessoas com agasalho circulam nas vias ao lado da ria enquanto as crianças que acabaram de sair da escola aproveitam a luz branca do sol jogando futebol e basquete no parque. Após caminhar um pouco e passar pelas arquiteturas contemporânea do hotel Melia e industrial da antiga fábrica de cerâmica, revitalizada para abrigar eventos e atividades públicas, logo percebo o papel vital das pontes que passam por sobre o canal d’água: mais do que ligar dois lados da cidade, elas conectam o velho e o novo, marcando o primeiro atributo forte daqui, a acessibilidade.


Ponte que passa por sobre a ria e liga os dois lados do centro de Aveiro.


Fachada do Hotel Melia Ria.

Acessibilidade que vai além do direito de ir e vir. Aveiro não separa o antigo do moderno, e isso faz com que todas as partes da cidade conversem. Pra qualquer lado que quiser seguir, qualquer viela que decidir tomar, tudo acaba se encontrando de volta: o prédio tradicional da Caixa Geral de Depósitos e seu teto baixo com vista para o coração da cidade, as ruas que mesclam janelas clássicas portuguesas restauradas com fachadas e sinalizações em art noveau e os cafés que, formados em torno de áreas de convívio, projetam cinema mudo com música ambiente nos seus pátios abertos.


Antiga fábrica de cerâmica Jeronymo Pereira Campos.

Dentre as características gastronômicas principais da Veneza portuguesa estão as tripas, bolachas e ovos moles. Estes últimos, são tão singulares que possuem até marca própria: os Ovos moles de Aveiro®. Comercializados basicamente por confeitarias, barracas e alguns poucos vendedores ambulantes, a despretensão própria do modo de preparo e do apelo culinário destes doces parece ser uma pura consequência da simplicidade, principal atributo de relacionamento da cidade.

Qualquer que seja a sua busca ao andar pelas calçadas e ruas que beiram o canal da ria, vai notar que a simplicidade é uma constante. Mesmo a filosofia do povo português parecendo ser algo do tipo “não me incomode e eu não te incomodarei também”, a tranquilidade do aveirense é algo que chama a atenção. De um modo geral, aqui não há muita sofisticação tanto nos espaços públicos quanto na comida e no modo de ser tratado pelas pessoas; e é justamente neste acordo de experiências que se revela o modo de ser e estar nesta terra. Aqui as coisas tem de ser naturalmente boas desde a sua essência até a sua aparência. É um tipo de humanismo colocado na prática e sem muita frescura.


Vista de cima do prédio do Forum Aveiro ao norte.


Vista de cima do prédio do Forum Aveiro ao oeste.

A qualidade do branco da luz é talvez uma das características predominantes da região. Apesar de ser percebido antes de tudo como um atributo sensitivo e estético, quando se coloca todas as observações em uma balança se chega logo à conclusão de que é algo que define as políticas de troca, o jeito de conviver e a própria existência desta sociedade. Assim como o conceito do espaço iluminista vem da “luz em abundância” e da luta contra a obscuridade e o ocultismo, a cultura da clareza aveirense é um reflexo da maneira ubíqua na qual o sol incide por aqui. Clareza tão onipresente que chega quase a cegar quem não bota óculos escuros.


Hotel Aveiro Palace, localizado no coração da cidade.

A imagem de Aveiro é como a de um pequeno barco capaz de se dobrar e de conectar as suas duas pontas. Plana, branca, de curvas suaves e de articulação simples.

É como se ela usasse toda a sua serenidade pra dizer: –”Se aproxime com calma, contorne as minhas linhas, junte as minhas partes. No final você vai apenas ver que o lado em que o sol bate e ilumina a sua cara não tem e nem precisa ter profundidade. Ele se alimenta das coisas mais simples e naturais da vida, assim como da sua própria luz”.

Aqui eu pude perceber de um modo mais direto como a claridade influencia o ambiente social. Os atributos de Aveiro criam um ambiente onde é desnecessário se recorrer a artifícios ou mesmo a válvulas de escape. Fala-se claro, ouve-se claro. Uma cidade que revela a parte serena e tranquila do ser humano, justamente por ser e estar na face clara do velho mundo.

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Weme Experience Stanford #Dia10: TellApart, a engenharia da propaganda

Uma das empresas visitadas pela weme no Vale do Silício foi a agência de marketing preditivo TellApart. Essa visita foi agora resgatada porque na última quarta-feira saiu a notícia de que ela foi comprada pelo Twitter por aproximadamente $ 532.6 milhões em ações. Formada por uma equipe de pouco mais de 70 pessoas, engenheiros em sua maioria, a TellApart foi adquirida pelo Twitter com a expectativa de aumentar a participação da rede social no comércio eletrônico e aprimorar seus formatos de propaganda. Para quem ficou curioso para conhecer essa empresa de mais de meio bilhão de dólares, contamos sobre ela a seguir.

A propaganda tradicional utiliza da comunicação com grandes massas para transmitir suas mensagens. Confiando em frequência de exposição, marcas colocam seus esforços em empurrar suas mensagens para grandes concentrações de audiência. E elas chegam até a audiência. O problema é que o volume de dados sobre as pessoas que estão recebendo é limitado. Bem como a compreensão do resultado desses anúncios, e, mais importante, sem correlação direta com o comportamento do cliente naquele espaço de tempo específico.

Em mercados com presença digital consistente e desenvolvidos, alavancados pelo conhecimento e utilização de dados, anunciantes e agências de propaganda hoje tem informação para compreender alguns comportamentos de cada um de seus consumidores e transformar a forma de se comunicar e relacionar com as pessoas. Uma das mudanças mais relevantes está no marketing preditivo. Uma forma de monitoramento de comportamento e ações prévias para identificar oportunidades de mercado e comportamentos futuros usando o Big Data.

O Big Data é um termo que descreve qualquer grande volume de dados com potencial de garimpo de informações. A descrição é utilizada para petabytes e exabytes de dados. Ao navegar pela internet, cada pessoa gera uma infinidade de dados que podem ser rastreados, garimpados e podem contar muito sobre cada indivíduo e seu momento. Enquadrados como Big Data, estes dados podem e são utilizados por novos modelos de agências de marketing preditivo para oferecer produtos e informações no momento que os consumidores estão efetivamente dispostos a comprar.

Uma destas agências está no Vale do Silício, a TellApart, e a conversa na empresa foi com o gestor de contas, Evan Hamlin. “Antigamente a preocupação era em conhecer o público-alvo, hoje nós podemos conhecer o indivíduo”.

O trabalho da agência para os seus clientes é monitorar os passos de cada consumidor on-line, traçar um perfil a partir de seu comportamento, comprar espaços on-line em tempo real e enviar mensagens específicas e direcionadas para o perfil e comportamento deste consumidor naquele momento. “Tudo isso acontece em milésimos de segundo. Somos uma agência formada 80% de engenheiros. As atividades de monitoramento, identificação, compra e anúncio acontecem de forma autônoma graças a sistemas e algoritmos complexos desenvolvidos por essa equipe”.

Basicamente o modelo funciona desta forma: as pessoas deixam pegadas on-line, seja em sistemas de busca ou nos seus relacionamentos nas redes sociais. Esses dados são coletados e cada consumidor e seu comportamento são identificados. A partir daí o sistema gera mensagens específicas para cada pessoa e começa a disputa por espaços de divulgação on-line — uma espécie de leilão instantâneo — entre anunciantes. O anúncio é individualizado e veiculado através de sites, e-mail ou posts, por exemplo. Evan reforça: “Neste mundo de Big Data, anunciantes com os melhores dados e algoritmos fazem os melhores lances e tomam as melhores decisões de mensagem”.

A engenharia chega ao mercado de marketing para trazer mais relevância para o setor. A utilização de dados em real time (gerados a partir de comportamento e não questionários) para tomada de decisão de comunicação das marcas vem sendo, e será, com certeza, um dos focos das inovações do mercado de comunicação para os próximos anos. É importante lembrar, porém, que estamos sempre falando de pessoas e não números. O que está por trás do marketing preditivo é entender comportamentos para ser mais relevante na hora certa, e não a substituição das interações pessoais e o conhecimento profundo de cada indivíduo. O sucesso do futuro do marketing estará no equilíbrio e na combinação dos dados e da velha e boa conversa com as pessoas.