Hora de planejar o incerto (com a certeza do porquê)

Já estamos encerrando o penúltimo quarto do ano e, com tantas incertezas em relação ao mercado brasileiro e mundial, a já difícil tarefa de planejar a estratégia das empresas toma uma complexidade ainda maior. Mesmo assim, o planejamento permanece um elemento central para a construção do futuro da empresa – e sua construção e monitoramento, embora em novo contexto, é cada vez mais essencial para o sucesso seja qual for o setor e tamanho da empresa.

Há algum tempo temos um direcionamento que o planejamento estratégico deve ser “apenas” um exercício de direcionamento dos rumos da empresa, fortalecido por uma dinâmica robusta de monitoramento e revisão, conforme os direcionamentos as alterações de rumo das diversas variáveis que impacta os negócios tomam corpo no decorrer tempo. Em 2010, John Chambers CEO da CISCO, sacudiu as bolsas ao dizer que “vivemos em uma era de incerteza anormal”. Mas o que se viu de lá para cá é que realmente temos que olhar para os desafios sob uma nova perspectiva para termos possibilidade de endereçamento num tempo aceitável.

É a “estratégia competitiva no limiar do caos”.

“A mudança intensa e veloz está sempre imprimindo novas formas aos negócios, não importa qual a situação; empreendimentos high-tech inéditos ou gigantes da Fortune 500, de São Paulo a Estocolmo, na indústria do aço ou do silício. Em toda parte, em toda indústria, os mercados estão emergindo, fechando, reduzindo-se, dividindo-se, colidindo e crescendo, e as abordagens tradicionais da estratégia empresarial já não são adequadas”, citam os autores Brown e Eisenhardt. Eles sustentam que para ter sucesso neste cenário é preciso reconstruir o paradigma de crescimento: o novo desafio não é sobreviver à mudança, mas tê-la com elemento fundamental no modelo de negócio das empresas.

Se antes “o importante” era engolido pelo “urgente”, hoje existe uma confusão generalizada dos cenários. Como muitas organizações brasileiras mal passaram pelo movimento da padronização dos processos e sequer têm incrustadas em seu dia a dia o monitoramento de sinais vitais básicos da sua saúde, esta discussão pode até soar distante. Mas o sintoma de caos apare igualmente, pois as novas regras de competição são implacáveis em todos os mercados.

A boa notícia é que a complexidade é tão grande que os modelos de gestão e, sobretudo, a construção e monitoramento da estratégia demandam simplicidade extrema em todos os âmbitos da gestão. Assim, a inclusão (pelo menos no âmbito ferramental) das empresas é relativamente fácil, ainda com a disponibilidade de ferramentas e informação estupidamente baratos que a “era do conhecimento” nos proporciona.

A atuação das consultorias, neste cenário, é de facilitadoras e orientadoras do processo de planejamento estratégico. As dinâmicas e ferramentas devem ser práticas e leves, e devem demandar pouca energia concentrada – e, em contrapartida, desenvolver um processo contínuo de monitoramento e revisão. “Sem apegos”! Colocar efetivamente na agenda a discussão do “importante”, mesmo com as “urgências” rotineiras.

O grande desafio na construção da estratégia é que ela, a marca (a razão de ser da empresa), deve ser orientadora de todo o processo de planejamento estratégico. Como tantas mudanças de “o que fazer” e até mesmo de “como fazer” para competir, se não houver um “por que” da organização existir, tudo se dissipa e se perde. Quando a organização começa pelo porquê jamais manipula, mas inspira as pessoas. Com identificação com a marca, as próprias pessoas irão construir conjuntamente com a organização os caminhos para sua perenidade, renovando e evoluindo continuamente a estratégia.

Leitura sugerida:
BROWN, Shona L.; EISENHART, Kathleen M. Estratégia Competitiva no Limiar do Caos. São Paulo: Cultrix, 2004.
TED Sugerido
“Profile: Simon Sinek: Leadership expert and author”. TED (conference).

1-4Jdf6a2UT8X5uxqeN65j9A

Isso vai muito além do “era uma vez”.

A arte de contar histórias é, sem dúvidas, a mais antiga das ciências. Através de uma simples — mas poderosa — narrativa, podemos criar conexões emocionais e psíquicas muito fortes com nossos interlocutores e até mesmo gerar mudanças no seu comportamento.

Às vezes me pego imaginando como foi primeiro conto na história da humanidade. Provavelmente ele se deu através de uma conversa nada articulada entre dois “Australopithecus afarensis” ou algum outro parente com nome esquisito e bem distante. Aos gritos e com a ajuda de gestos e grunhidos, um poderia ter contado ao outro uma das suas aventuras, algo do tipo:

­­— Lucy, você tinha que ver, era só eu contra esse animal gigante, e quando ele veio pra cima de mim, eu tive a ideia de bater nele com este pedaço de osso bem aqui, olha só.

— Aham, sei.

— É serio, como você acha que eu consegui o jantar de hoje, no leilão?

— Está bem, vou acreditar. Agora vai lá e acende o fogo pra gente cozinhar ele.

— Acender o quê?


Ilustração de Michael Hagelberg

É claro que esta história não pode ser real, até porque naquela época os leilões não permitiam o sorteio de animais em seus lotes. Mas uma coisa é certa: quando contamos uma história, criamos laços psicológicos muito fortes com nossos leitores ou ouvintes.

Existe até um estudo conduzido por Paul Zak que afirma que ouvir ou ler uma histórias faz com que o cérebro libere oxitocina — sim, o famoso hormônio do amor — o que reforça os sentimentos de confiança e empatia. Tanto é que, para comprovar sua teoria, Zak convidou algumas pessoas para um experimento em que alguns assistiram a um vídeo com uma história emocionante, enquanto as outras não. Ao final do teste, as pessoas que viram o filme tendiam a ajudar muito mais as outras em um segundo momento da pesquisa.

Mas não vá pensando que todas histórias têm este poder, e muito menos que todas ouvintes reagem sempre com o mesmo comportamento. Afinal de contas cada pessoa, por mais parecida que possa ser, possui suas próprias experiências de vida, crenças, cultura, visão de mundo e mais uma infinidade de particularidades que devem ser levadas em consideração ao narrar seu “causo”.

Além disso, como sabemos, contar histórias é uma arte. E uma boa história, por menor que seja, deve ter obrigatoriamente, começo, meio e fim — parece óbvio, mas algumas pessoas ignoram completamente esta sequência quando vão escrever um texto ou contar algum acontecimento.

Quer um exemplo? Provavelmente você conhece alguém que se acha muito engraçado, mas não tem nenhum ritmo na sua narrativa e quase sempre acaba revelando o final da piada antes da hora. Acertei, né?

Voltando ao assunto, escrever uma história envolvente implica muito mais dedicação do que se possa imaginar. Você pode ter vivido uma experiência incrível que poderia fazer brilhar o olho de qualquer pessoa, mas se você não souber contá-la, o máximo que você vai conseguir é um “legal cara”. Mas da mesma maneira, com os elementos certos, um simples acontecimento pode virar uma grande aventura. Por exemplo:

“Ainda me lembro quando encarei o meu primeiro desafio. Na época, saltar de uma altura considerável só para provar pro meu irmão mais velho que era possível voar só com a ajuda de um guarda-chuvas, assim como nos desenhos animados, me pareceu uma proposta bem razoável.

Apesar das contusões, dos medicamentos, das broncas e das semanas de castigo, nunca vou esquecer daquele vento no rosto, da sensação de liberdade, do frio na barriga e finalmente do orgulho em ter alcançado o meu objetivo — e em seguida o chão, é claro.”

O que é bem diferente de:

“Quando tinha 7 anos fui desafiado por meu irmão a pular de uma árvore com um guarda-chuvas. Cai e fiquei de castigo um bom tempo, mas pelo menos aprendi a lição.”

Sem dúvidas, a primeira narrativa foi a que prendeu mais a sua atenção. Até porque ela possui mais detalhes e narra sentimentos e sensações que qualquer pessoa poderia ter na mesma situação.

Este mesmo princípio é muito utilizado por alguns líderes afim de motivar suas equipes. Discursos inspiradores são capazes de estimular as pessoas e influenciar melhorias para toda a empresa. Afinal de contas, uma história no momento certo pode não só reter a atenção de quem está ouvindo como também inspirar mudanças em seu comportamento.

Histórias não são contadas apenas com palavras. As marcas que o digam.

Da mesma maneira que a história da sua vida não pode ser compreendida apenas pela sua maneira de falar, por exemplo, a identidade, o propósito e a trajetória de uma marca não pode ser identificada apenas por algumas palavras, discursos ou manifestos.

Para contar suas histórias as marcas precisam de elementos visuais, auditivos e principalmente, aqueles que geram experiências para seus consumidores.

Até porque, uma história pode transcender o universo dos textos, ganhar formas, cores, movimento e pode, igualmente à escrita, estabelecer uma conexão emocional com o público a quem ela é dirigida.

E nisso, algumas marcas são especialistas:

A Apple, por exemplo, utiliza sempre um padrão fotográfico com fundo branco, com uma tipografia bem característica e até mesmo a nomenclatura dos seus produtos fazem com que cada mensagem seja facilmente associada à marca. O mesmo vale para o Airbnb, Uber, Google, que usam cada elemento de comunicação para refletir seus atributos, que são partes essenciais da sua história.


Anúncio característico da Apple

Enfim, não importa o formato em que estão sendo contadas, se as histórias carregarem sentimentos, elas serão capazes de criar fortes conexões emocionais que poderão, não apenas inspirar, mas também ecoar novos pensamentos, reflexões e por fim ações para as pessoas.

E aí, como você está contando suas histórias?

1--RhWXy6pmQnStu3EaT6E2Q

Quem sabe o que é filosofisicar?

Eu implorava por uma aula maçante. Daquelas bem teóricas, ministradas pelo mais enfadonho, monótono, previsível, acomodado e mais do mesmo professor. E tudo tendia pra isso: sala impecável, ambiente tradicional, pessoas com olhares — e posturas — de administradores, executivos. O local? Uma das mais respeitadas fundações do Brasil, especializada em tudo relacionado a negócios.

A exaustão me assolava. Vindo de um fim de semana recheado de atividades extremas em desempenho físico e mental, eu só queria receber informações e anotar coisas, nada mais. Sentei no fundão. Naquele local onde muita gente recorda, da infância, ser o mundinho dos vagabundos, fanfarrões, descoladões, que têm, ou tinham, como comportamento de sala a filosofia do Zeca Pagodinho, deixando a “vida lhes levar”. Era tudo o que eu desejava: que o conteúdo me levasse. Que, pela mais passiva osmose do Universo, aquele conhecimento de três horas e pouco pudesse me provocar alguma interação neuronal diferente, sem eu nada precisar fazer fisicamente. Não deu certo.

O professor, a quem eu não precisaria poupar o nome mas vou, chegou usando sandálias. Não sei qual era a roupa, mas foquei nas sandálias e isso me bastou.

– Não teremos uma aula normal.

– Por quê?

– Olha pros os pés dele.

Quem já fez aulas de teatro deve lembrar da técnica do esgotamento físico. Não sei se a ferramenta tem um nome, mas deve ter. A ideia é a pessoa fazer exercícios com o corpo até o cansaço total, e depois interpretar um papel difícil, em que ela tenha que sair da zona de conforto de verdade. Segundo a técnica, nessa situação a resistência mental a desafios diminui muito. A aceitação é maior, mais fácil e rápida. Há explicações cerebrais para isso, mas não vou me ater, novamente, a elas.

Não lembro exatamente como foi a aula, mas sei que gesticulamos muito, conversamos e, não tenho tanta certeza, dançamos. Só que eu não estava em meu estado natural, mas em pleno êxtase da exaustão. E minha zona de conforto penso ser, em média, um pouco mais larga que a de um executivo-padrão. Ou seja: não doeu nada. E nas aulas seguintes foi comum a gente ouvir: “Tão afim de fazer uma coisa diferente?”, “Chegou a hora da gente ficar em pé.”. A verdade é que, no final do curso, já estávamos calejados de tanto refresh em nosso mindset.

A propósito dessa parte corporal e de interação social, havia também outra situação física: o layout da sala. A organização das cadeiras sempre mudava. Nada naquele script parecia como no roteiro original. E foi ali que aprendi uma nova palavra, logo eu, que adoro neologisar: filosofisicar.

– Professora, mas que raios é isso?

– Tirar da mente, do filosófico. E colocar no físico, no fazer.

Captei a mensagem, instantaneamente. E lembrei da minha mãe: ela tinha (tem) a mania incontrolável de mudar os móveis de casa, numa periodicidade incrível. Nada, em termos de decoração e móveis, eram os mesmos por mais de seis meses. Não adiantava contratar um decorador, desses que assinam seus trabalhos, que a minha mãe reassinava tudo. Gostava de novos ares, sempre. Grande filosofisicadora, a minha mãe.

Tem muito de neuroplasticidade, de empirismo, de prototipagem, mas, essencialmente, filosofisicar tem muito de HOW DOES IT WORKS?! Afinal, quem não está cansado de teorizações, filosofias, histórias de sucesso, regras, leis, condutas e uma série de outras coisas que muito têm de pensamento, e quase nada fazimento? É como se quiséssemos, só através do software, melhorar nosso hardware. E quem disse que não seria, em muitos casos, mais fácil começar pelo hardware?

Não é de hoje que se pesquisa — e se comprova — a influência da parte física (nosso corpo e ambiente) nos tipos de estímulos cerebrais que recebemos, e como isso melhora ou piora a nossa receptividade à situações que nos surpreendem neste planeta em constante transformação. Sobre a parte corporal, há um vasto e fácil conhecimento, como o TED da Amy Cuddy (http://goo.gl/jSb1ie), que nada mais é que filosofisicar em estado puro. E seja qual for a mudança, ela necessariamente nos causa um refresh, como se a gente apertasse o F5 (para os PCs) em nosso jeito de encarar a realidade. Pois não há um ser humano que entre em um lugar, totalmente desconfigurado em relação a seu histórico, achando que se seguirá um momento como qualquer outro.

Mas é claro que, em nosso dia a dia, nem todos estão preparados para receber certos tipos de refresh. Simplesmente não estão no timing. É como ler um clássico na adolescência e, de novo, na fase adulta. A percepção é outra. Não dá pra convencer um adolescente, no auge da testosterona, a ser paciente apenas com explicações. Ele vai entender tudo, compreender pouco e aplicar nada. É por isso que filosofisicar funciona tanto.

Naturalmente não há só timing, em relação à adesão das pessoas a coisas novas (e supostamente/testadamente boas). Existe algo de índole, de atitude, de estar aberto a experimentar, ao não previsível, ao, mais profundamente falando, gostar-se como se é. E, sobre isso, vulnerabilidade, Brene Brown falou muito bem, em um TED pra lá de interessante e famoso: http://goo.gl/XeDwdw

Dizem que o primeiro passo é mais da metade do caminho. E essa coisa de iniciar algo tem um pouco de dor, depois outro pouco de gosto e, por fim, muito de saudosismo. Falando nisso, lembrei agora de uma frase que uma pessoa me disse há anos, e que não era bem assim, mas reescrevo aqui: “Quem tem medo de começar, tem medo da novidade. Quem tem medo de terminar, tem medo da saudade.”.

Se vale a tentativa? Só há um jeito de saber.

1-1xP0XZHsBa2a1zV50uLZJw

Autonomia às pessoas, mais relevância aos negócios

Quando uma empresa possibilita um meio de trabalho desafiador — no bom sentido da palavra, é claro — acaba criando, intencionalmente ou não, um ambiente que inspira a inovação, tanto para quem está dentro dela, quanto para quem demanda seus produtos ou serviços.

Há aproximadamente um ano, quando comecei a trabalhar aqui na weme, o “grande” desafio era elaborar pequenos textos de apoio para posts de redes sociais. Mas com o tempo e com o ambiente favorável que encontrei por aqui, logo alçaria voos cada vez mais altos — como este texto, por exemplo.

Essa autonomia e a filosofia da empresa me trouxeram a inquietação na busca pelo aprimoramento profissional, o que reflete diretamente na qualidade do meu trabalho e na fuga da temida zona de conforto.


Espaço de trabalho da weme. Fonte: www.weme.nu

Ah, a zona de conforto. Apesar do nome sugerir o contrário, esse “espaço” pode ser mais prejudicial do que parece. Nele, não há períodos seguros de permanência, nem para as pessoas, muito menos para as empresas, que, cada vez mais, tendem a buscar soluções para fugir do comodismo e dos moldes tradicionais.

Neste sentido, uma empresa que sempre admirei — seja pelos formatos das suas áreas de trabalho nada convencionais, com todas aquelas salas que mais parecem um playground pra adultos; ou pelas sua tecnologias que estão presentes na nossa vida a todo momento — é a Google, pelo menos era como eu a conhecida até o dia 10 de agosto de 2015.


Campus do Google em Dublin. Fonte: www.amapadigital.net

No meio desta semana, li uma publicação onde Larry Page (cofundador da gigante de buscas) anunciava a criação de uma nova empresa, a Alphabet, que funcionará como uma holding para as operações não essenciais da marca. Bom, acredito que a notícia tenha pego muita gente de surpresa, mas não foi uma novidade tão grande assim pra quem acompanhou pelo menos um pouco da trajetória da marca, que nunca fez questão de esconder de ninguém que não era uma empresa comum e que nunca teve a intenção de se tornar uma só.

E a maior prova disso são os inúmeros produtos nas mais diferentes áreas — olha só a fuga da zona de conforto aí –, desde aquelas que estão relacionadas diretamente com o seu produto original, como é o caso do sistema Android, o Google Chrome ou o próprio Tradutor (e eu a agradeço muito por isso); até as suas novas soluções para a área saúde, como as lentes glucose-sensoriamento que melhorarão a vida de muitas pessoas com diabetes.

Com tantos projetos em diferentes fases de execução, Larry Page e Sergey Brin decidiram que a melhor maneira de favorecer a prosperidade para cada um destes negócios, e assim garantir sua continuidade, era dando mais autonomia aos líderes de cada projeto para uma gestão mais independente.


Larry Page, CEO da Alphabet. Fonte: www.fastcompany.com

Em uma entrevista à revista Time magazine, em 2013, Larry falou um pouco sobre como, num processo contra-intuitivo, devemos trabalhar em projetos que não são adjacentes àqueles em que já estamos envolvidos, onde já somos especialistas, e assim buscar novos desafios.

Se a sua nova formulação será tão eficiente quanto a antiga — como questionam alguns especialistas na área de inovação — ainda não sei, mas uma coisa é certa: o histórico da Google mostra que a empresa é fruto, principalmente, das experiências que deram certo e também das que não foram lá tão bem-sucedidas.

Independente disto, eu acredito que a inovação é construída da vontade de mudar, da liberdade para cometer erros e da sabedoria de corrigi-los, das experimentações e da constante busca por nossos desafios. Isso eles têm de sobra, e a gente também.

1-TOzr9mlHfcrodBL33ep-Xw

Vida: aquilo que passa enquanto estamos olhando o celular

Não são raras as vezes em que estamos em uma roda de amigos ou em qualquer outra situação do nosso dia a dia e percebemos alguém com o olhar desviado para a tela de um smartphone. Cada vez mais as relações humanas estão sendo intermediadas ou interrompidas pelo uso destes aparelhos que, muitas vezes, fazem com que ignoremos completamente quem está a nossa volta.

Preocupados com este problema crescente na sociedade moderna, a agência de publicidade McCann — em parceria com o dicionário Macquarie Dictionary — reuniu em maio de 2012, na Universidade de Sydney, uma equipe de especialistas em linguagem para criar uma palavra que representasse este novo cenário.

Foram dias de estudo e pesquisas até chegarem na palavra Phubbing, que é a junção das palavras phone e snubbing, que significa: esnobar alguém através do uso do telefone. Rapidamente a nova palavra ganhou fama e discussão mundial devido ao lançamento da campanha Stop Phubbing, realizada pela própria McCann que, ao mesmo tempo que conscientizou milhares de pessoas ao redor do mundo sobre o assunto, alavancou as vendas do dicionário atualizado com a nova palavra.

Macquarie “Phubbing: A Word Is Born” — McCann Melbourne

O tema polêmico também foi abordado pelo renomado artista de rua, Banksy, em um de seus murais em Bristol, no Reino Unido (imagem título). A imagem representa a cena de um casal se abraçando, porém distraído com o uso dos seus celulares, sugerindo que as relações entre as pessoas estão sendo ameaçadas pelo uso excessivo dos dispositivos.

Recentemente a palavra voltou em cena com o vídeo Stop Phubbing Around, criado pela Coca-Cola no fim de 2014. Em parceria com a agência Memac Ogilvy Dubai, UAE, a empresa mostrou, de uma forma emocionante, o que perdemos quando damos mais atenção às redes sociais do que à vida real.

Stop phubbing around — Coca-Cola

Os apelos de stop phubbing podem realmente tomar dimensões comoventes, mas não podemos esquecer o quanto a tecnologia dos smartphones nos trouxe benefícios fantásticos, e ironicamente, um conceito diferente de proximidade: poder falar diariamente com uma pessoa especial que agora reside no exterior, se atualizar constantemente das atividades de nossa família inteira ou até mesmo acompanhar na íntegra as viagens de amigos pelo mundo.

Colocando tudo em uma balança, a questão do equilíbrio sempre volta à tona: será que realmente não estamos dando mais tanta importância ao mundo a nossa volta? Se for mesmo, isso não é carma exclusivo de poucos, muito menos um problema com você (…) só um minutinho (…)

Me desculpem, era uma mensagem importante.

1-z8auUD_oXzrCTWTHwrIDnw

Ela tinha um incrível pleno emprego de seu talento.

– Você não vai acreditar!

– Ih… Lá vem…

– Estou eufórica, nunca me senti tão realizada!

– Então parabéns. Quer me contar ou é segredo?

– Estou no melhor hospital em demência mental do mundo, aqui nos Estados Unidos!

– Sabia que não era uma coisa normal…

– As mentes mais problemáticas do planeta estão aqui, pertinho de mim!

– Nossa, que legal, deve ser um lugar bastante animado. Você tá em férias?

– Sossega, vai. Além de tudo, estou tratando do paciente mais difícil de todos… Pensa num desafio grande…

Mariana é uma neurologista. Dessas puro sangue. Dessas médicas de verdade. Ou melhor, profissional de verdade. Você provavelmente conhece alguém assim, mas, convenhamos, não é a maioria. O texto das nossas conversas é geralmente divertido, mas nada pode ser mais revelador do que o subtexto.

O talento, quando fundido ao exercício constante e em meio a um ambiente propício, é o que Aristóteles chamou de eudaimonia, um conceito enviesadamente compreendido como felicidade. Para o pupilo de Platão, somente com a tríade virtude, hábito e contexto, uma pessoa poderia chegar a esse estado de plenitude do ser, de pleno desabrochar de suas aptidões, da presença de sua própria “genialidade”.

Não tenho a pretensão de tratar sobre os buracos dessa linha de pensamento, refilosofados muito tempo depois por Kant. Mas Mariana, essa neuro, tem a “sorte” de viver uma biografia com as três características. Coisa que a minoria da população tem, segundo o próprio Aristóteles.

Quantos jogadores de futebol que têm aptidão pra tocar violoncelo, ou qualquer outro talento, exceto jogar bola, você conhece? Provavelmente a maioria. Quantos nasceram pra isso, mas não se desenvolveram por falta de disciplina? Muitos. E quantos reúnem virtuosismo e treino, tornando-se geniais por muito tempo? Poucos. Fora os que têm um insuspeito talento, mas que nunca foram — e nunca serão — apresentados a uma bola.

Na nossa vida é mesma coisa — e aqui vai uma levíssima digressão: não diferencio vida pessoal de vida profissional, afinal, nossas escolhas profissionais foram feitas quando só tínhamos “vida pessoal” e, portanto, elas são parte de toda a biografia. O nosso dia a dia é cheio de indivíduos que, semiconscientes de si, ou inconscientes totais, culpam o ambiente pelas frustrações de suas insípidas vidas. Mas muita gente tem a oportunidade de viver intensamente sob a luz do que vieram fazer por aqui. E é sobre estas que falo.

Não há uma, mas inúmeras vantagens de se exercer constantemente aquilo que se tem talento. Falando em demência mental, até o mal de Alzheimer uma pessoa pode minimizar, segundo pesquisas que descobriram atividade de memória muito além do hipocampo, em gente que sofria desse mal. Daí foram verificar a biografia delas: a maioria era referência em suas atividades outrora, quando sãs. Elas tinham, enquanto doentes, incríveis lapsos de lucidez, pois desenvolveram o que chamam de memória relacional.

Os benefícios não param por aí. E não é preciso ser um expert para pensar sobre o quão diferente, pra melhor, cada atividade nossa poderia ser. E como o futuro, em uma visão ainda maior, poderá ser.

Outro dia, caminhando com a Mari no parque, ouvimos uma criança dizer pra mãe:

– Não quero estudar! Quem gosta de estudar?! Não conheço uma pessoa que gosta!

Eu e ela nos olhamos, estarrecidos. Não sei dela, mas o primeiro pensamento que tive foi: não quero um médico que comumente teve essa atitude na infância, cuidando de mim no futuro.

1-Y0vIFqtiLEDWOH4rtbGBjQ

Pudores matam mais vida que ímpetos.

– Você escreve muito difícil.

– Quer dizer prolixo ou erudito?

– Tá vendo?! Vamos fazer assim: sempre que estiver comigo, cada palavrão que você falar, me paga 10 reais, pode ser?

– Dá alguns exemplos de palavrões que esta criança aqui não vai poder falar…

– Zeitgeist. Epistemologia. Hermética. Idiossincrasias. Preconizavam.

– Hum.

– Topa ou não?

– Topo. Se bem que é mais fácil o João Gordo sofrer de anorexia ou o Mar Morto ressuscitar.

– Tá cheirando o que aí nesse livro?

– Acabei de ler. É um pensamento básico sobre a ética da ação.

– Sei… Me conta…

– Diz que nossas ações podem ser pensadas de duas formas: absolutista ou consequencialista.

– E qual é a certa?

– Aí é que tá. Não existe uma resposta.

– Tenta explicar, sem me pagar nada, a diferença entre essas duas coisas.

– Absolutista é alguém movido apenas por suas convicções, seus princípios, não importando as transformações que essas atitudes fazem ao seu redor.

– Alguém que tá cagando pros outros, é isso?

– Exato, isso também. E consequencialista é alguém preocupado apenas com o resultado do que faz, não importando o ato em si, mas o que acontece depois.

– Você disse apenas. Tem como ser “apenas” uma coisa?

– Acho que não, né? É por isso que não existe certo ou errado.

– Lembrei daquela frase do Pequeno Príncipe.

– “Você é eternamente responsável por aquilo que…”

– Essa! Ele não queria ser responsável, pois não tinha feito “nada” para cativar, estava sendo ele mesmo… Absolutista.

– É… Acho que não dá pra ser uma coisa ou outra, mas as pessoas — e as empresas, têm tendências. Se não se preocupam com o que vai acontecer, acabam tendo graves transtornos sociais. Se só se preocupam com os resultados, acabam por reprimir seus desejos de uma forma muito forte.

– E qual a minha tendência?

– Inconsequencialista.

– Ha-ha-ha.

– Uma empresa preocupada apenas com as metas financeiras, pode perder seus valores essenciais.

– Consequencialista.

– E uma organização focada apenas em seus princípios, sem considerar o ambiente…

– Absolutista, pode falir.

– Isso… Mesma coisa com pessoas.

– O absolutista sempre tem razão. Tipo àquela gente que vai pra outro Estado do Brasil e acha que lá existe sotaque, mas que ela mesma não tem um.

– Ou o consequencialista, que prefere ser aquela metamorfose ambulante, sem opinião própria.

– Podemos dizer então que a maioria das pessoas e empresas estão na tendência de focar em metas, resultados, no que os outros vão pensar, como vão reagir, sendo guiadas muito mais pelas consequências que querem gerar?

– Mas que bela explicação, querida! Eu acho que sim, mas não tenho certeza.

– Tampouco seria legal se todos seguissem seus próprios valores, sem considerar os outros, pois nossas crenças não são universais…

– Caramba, estou tendo uma aula aqui…

– Digamos que você fosse um cara equilibrado, bem imaginativamente falando, e tivesse que escolher tender pra um lado? Que lado seria?

– Acho que o das crenças, absolutista. Mas, na minha opinião, o mundo é um constante exercício de empatia, um infinito movimento de acordos, onde fazemos a intersecção entre os nossos valores, o ambiente e os valores dos outros.

– Concordo. Eu também tenderia, acho que mais fortemente que você, pra um modelo mais passional.

– Como assim?

– Sou mais impulsiva. Cairia pro lado de ser as minhas crenças, por mais distorcidas que sejam. Se eu for relativizar tudo, acabo por não viver a minha história pessoal, mas a biografia de alguém genérica.

– Gostei… Acho que este texto já dá um caldo. Vou publicar.

– Que texto? Você não tá escrevendo nada…

– Esta conversa, vou transcrever.

– Eita! Me dá os créditos, ok?

– Tá.

– Que título você vai colocar?

– Tava pensando em algo como “A dialética da ação”.

– Tá de brincadeira, né?

– Não… Rs… Mas então me dá uma ideia…

– Sei lá… Algo como “o medinho de agir que nos mata devagarzinho”… Afinal, esse livro não é sobre agir, ação? Você tem talento pra escrever algo que dê pra entender, faz uma força, vai…

– Tá, e quanto eu te devo pelos palavrões?

– Até que não deve tanto, mas depois te passo a conta.

– Vê lá, quando voltar, se aprova o texto.

– Tá. Beijos.

– Beijos.