Por que dependemos da evolução de investidores e empreendedores?

Web Summit 2019

Nos últimos dois anos, um grande grupo de empresas de software com altos valuations e massivas rodadas prévias de venture capital, fizeram o movimento na direção do mercado público de capitais (IPO). A maioria dessas empresas perderam montantes substanciais de dinheiro desde que foram listadas, incluindo grandes nomes como Spotify, Slack, Uber e muitas outras. No início, algumas delas chegaram a aumentar o seu valor, mas nos últimos dois meses, empurradas também pela ressaca do pedido inicial de IPO do WeWork (seguido de reports de perda de mais de 50% do seu valuation anunciado), elas perderam um valor de mercado considerável.

Uma análise precipitada poderia diagnosticar uma crise na indústria de investimentos em startups. Embora hajam vozes mais pessimistas, nos dois últimos dias aqui no Web Summit 2019, fiz questão de participar da maioria dos painéis de discussão sobre esse tipo de investimentos. A minha percepção é exatamente o contrário. Foram mais de 5 painéis envolvendo Seed Capital como Union Square Ventures, Seedcamp e Techstars; Venture Capital — como a Lightspeed, Northzone e FJ Labs; e Corporate Venture Capital — M12 (Microsoft), IBM, Sony e Verizon.

Na visão desses investidores, olhando para uma escala de tempo maior, o caso do WeWork e alguns outros papéis é uma correção pontual — e esperada — de mercado que não reflete a saúde da indústria de capital de risco. Saul Klein — da Local Globe, comentando sobre o potencial do investimento e das transformações tecnológicas, resumiu de forma otimista: "Estamos vivendo uma transformação massiva e secular. Estamos apenas no dia um".

Confirmando a posição otimista com dados, no talk Global Venture Review, Nizar Tarhuni, do Pitchbook (que por sinal é uma fonte de dados incrível), mostrou, em primeiro lugar, que globalmente há em venture capital um dry powder (capital comprometido pelos investidores mas ainda não investido) maior que $170 bilhões em 2019 — já 15% acima de 2018. Ou seja, a indústria tem recurso e ele cresce. Em segundo lugar, o diretor do Pitchbook afirmou que os fundos de seed capital e venture capital estão sólidos e são financeiramente saudáveis.

Outra observação que é possível extrair a partir dos painéis de investimento que participei é que a indústria de capital de risco está sim em evolução e alguns pontos se destacaram:

  • A fonte de capital está se diversificando — cada vez mais os fundos corporate e family offices estão participando. Em 2018 a indústria de corporate venture capital bateu recorde com investimento de 53 bilhões de dólares.
  • Novos modelos e regiões — Estão sendo explorados novos modelos e regiões que não apenas o do Vale do Silício para que a indústria possa ampliar o seu impacto e se adequar a diferentes realidades.
  • Tecnologia+talento não basta mais — É claro que a base tecnológica e o talento dos founders e time ainda é um ponto fundamental para os investidores, mas o conhecimento profundo do problema que a startup quer resolver, a veracidade do seu propósito (basta de negócios que nascem para ser vendidos e não para resolver um desafio relevante), a obsessão pela experiência do cliente, e a ética na hora de empreender entraram na pauta de forma bastante consistente por aqui.

Pegando carona no último ponto, se você é, ou pretende ser um empreendedor, problemas relevantes não faltam. Em países menos desenvolvidos como o Brasil, toda e qualquer experiência com saúde, educação ou segurança por exemplo, são um mar de oportunidades e uma necessidade real para garantir mais qualidade de vida para as pessoas. Se isso ainda não for grande o suficiente para você, vou aproveitar outras sessões que participei para chamar a sua atenção para dois problemas não só relevantes mas basais para a humanidade.

“A tecnologia vai mudar o mundo. Mas temos que garantir que isso seja de forma justa.”

Embora a tecnologia tenha nos trazido níveis muito superiores de qualidade de vida, ela é concentradora de recursos e amplia as desigualdades se não vier acompanhada de boas políticas. Não só indivíduos, mas regiões inteiras acabam de fora dos benefícios do desenvolvimento tecnológico. Ro Khanna e Tony Blair subiram no palco para discutir sobre como podemos atacar esse desafio. Na discussão ficou claro que a tecnologia precisa andar de mãos dadas com políticas contemporâneas — mais flexíveis e menos burocráticas. Muito além de apenas regular, essas políticas precisam se beneficiar da tecnologia para atacar problemas em segurança, saúde, educação ou prosperidade. Segundo Tony Blair, o problema é que os políticos atuais não entendem — e possivelmente nunca vão entender — como a tecnologia pode transformar a vida das pessoas. Ao desconhecer, temem e apenas criticam. Blair completou em tom de crítica sobre o BREXIT: "Enquanto se distraem com temas populistas, os políticos perdem a oportunidade de promover a evolução da qualidade de vida e deixam que as diferenças se ampliem ainda mais".

Aparentemente Khanna e Blair não conseguiram descobrir uma forma de fazer isso. Garantir acesso a todos ou permitir formas mais contemporâneas de governança pode ser um bom espaço para você começar a empreender.

“Estamos muito focados no papel da tecnologia como uma das principais soluções na luta contra as mudanças climáticas."

Na tarde de hoje também, Christiana Figueres — Founding Partner, Global Optimism — e, Kate Brandt — Google Sustainability Officer— ressaltaram a urgência que temos para lutar contra as mudanças climáticas, e como a tecnologia pode nos ajudar a virar esse jogo.

Na última terça-feira mais de 11.000 cientistas, de 153 países diferentes, se uniram para declarar sobre essa emergência. Sobre isso Christiana pontuou: "Nós não estamos salvando o planeta. A Planeta merecia um bolo pelos 4,5 mil milhões de anos, e vai sobreviver. Nós é que podemos não sobreviver. O que está em aberto é a forma como queremos viver e se vamos sobreviver”.

O próprio Google, através de Kate Brandt apresentou algumas plataformas desenvolvidas apoiar as pessoas a atacarem as mudanças climáticas — Environmental Insights Explorer ou ainda Your plan. Your planet— , e anunciou também a abertura de um programa de aceleração focado em startups dispostas a resolver alguns dos desafios globais da ONU.

Há exemplo da iniciativa do Google, o tema do clima é algo existencial e vai demandar e premiar empreendedores talentosos e obstinados.

Portanto, a indústria de venture capital está em crescimento e o avanço do volume de capital disponível parece ultrapassar a velocidade das iniciativas e empreendedores. A capacidade de compreender e resolver problemas com o foco nas pessoas e na humanidade é cada vez urgente e pauta da evolução dos investimentos e precisa estar também nos projeto ambiciosos de empreendedores talentosos se quisermos efetivamente extrair o potencial da tecnologia não apenas para melhorar a qualidade de vida, mas, para talvez sustentar a nossa viabilidade no planeta.

Mais alguns highlights do dia

  • Você já ouviu falar de Conscious design? Maggie Stanphill, UX Director do Google falou por aqui: o "design consciente" compreende tanto uma percepção sobre o próprio produto quanto as suas possíveis consequências colaterais a longo prazo. É também um exercício de projetar e testar produtos e serviços mais sustentáveis.
  • Escalar um negócio não é uma tarefa simples (nós mesmos estamos experimentando isso na weme), o que os empreendedores experientes contam em sua história sobre isso? (1)Transitar da onipresença dos fundadores para um conselho executivo (2)Escalar a cultura antes do negócio (3)Você precisa de uma rede sólida para isso.
  • Livros citados no dia: Setting the table, Why we sleep e American Carnage