Os próximos 50 anos da humanidade pós internet

Web Summit 2019

No dia 29 de Outubro de 1969, um time de estudantes da UCLA, liderados pelo professor Leonard Kleinrock conectaram o seu computador com outro computador de um time de Stanford. Foi a primeira comunicação da ARPANET, a precursora da internet. Desde então, o mundo transformou a forma de se comunicar e se relacionar. Nos aproximamos e temos acesso a um volume de informação e conhecimento sem precedentes. Mas na última década, essas mudanças se intensificaram e o que assistimos hoje, em contrapartida, é uma polarização extrema e o derretimento da confiança nas instituições tradicionais. Como afirmou Katherine Maher, CEO da Wikipedia por aqui no Web Summit 2019, essa falta de confiança quebra a nossa lógica de cooperação e colaboração e passa a ser então um grave problema existencial para a humanidade.

No 50˚ aniversário da internet, o Pew Research Center e o Imagining the Internet Center da Elon University, perguntaram a centenas de experts em tecnologia, incluindo o próprio Kleinrock, como a vida das pessoas pode ser afetada pela internet nos próximos 50 anos. Isso foi tema de um relatório e do painel "Looking back to go forward: 50 years of the internet" com Lee Reinie, diretor do Pew Research Center e Mitchell Baker, co-founder e chairwoman (faz todo sentido esse nome) do Mozilla.

Segundo Lee, os otimistas acreditam que os avanços digitais vão levar para uma expectativa de vida mais longa, mais lazer, mais equidade na distribuição de riqueza e poder, e outras possibilidades de ampliar o bem-estar. Porém, incluindo os otimistas, praticamente todos os experts adicionaram avisos sobre possibilidades de práticas de vigilância e abuso de uso de dados por corporações e governos, segurança deficiente para sistemas conectados e a possibilidade de desigualdade econômica e polarização, a menos que soluções políticas possam colocar a sociedade em uma direção diferente. Em resumo, o futuro está em jogo e decisões importantes.

A tomada dessas decisões, depende e afeta um elemento crucial que também mudou e cresceu muito nas últimas 5 décadas - o conhecimento. Para Marcus Weldon, CTO da Nokia e Presidente do Bell Labs, nos últimos 50 anos construimos uma infra-estrutura incrível de conexão e cooperação e a maior parte do que fazemos com isso é comprar online e assistir video de gatos. Mas Marcus está entre os otimistas e em seu talk: "The future of human existence: Proximity, productivity, and the pursuit of happiness", falou sobre como a internet vai evoluir para criar o que chamou de augmented people — seres humanos "acoplados" entre si e a inteligência artificial, ampliando sua capacidade individual e da sociedade de uma forma nunca antes vista. Segundo ele, vamos precisar ultrapassar o que chamou de crise do conhecimento - mais de 40% das interações na internet não são humanas, produzindo um volume impressionante de informação e conhecimento falso. Havendo ai um descompasso entre o volume de conhecimento produzido e a capacidade de curadoria e absorção das pessoas. Para Weldon, o futuro da internet e da humanidade aumentada passa, então, por utilizar o poder digital no sentido de reduzir e tornar o conhecimento disponível mais relevante, e permitir que as pessoas ampliem a sua capacidade de uso de tudo o que estará disponível.

Mas será mesmo que o problema para os próximos 50 anos é sobre política da internet, ou sobre o conhecimento? O último talk do dia — “The future we build needs to be open”- da Katherine Maher, CEO da Wikipedia, aprofundou na problemática e fez emergir um elemento central nessa discussão. Como afirmou ela, “Não temos um problema com o conhecimento. Há na verdade uma crise de confiança sem precedentes”. A confiança, não a internet, é a infra-estrutura invisível que une a humanidade e permite que os sistemas funcionem. "Confiamos no valor do dinheiro”, “no que está escrito nos jornais” ou que a “assistência chega quando ligamos”.

Porém, os sistemas tradicionais - entre eles democracia, governo ou imprensa - não foram capazes de se adaptar as transformações dos últimos 50 anos e pararam de funcionar plenamente para a sociedade. Katherine ressaltou as consequências disso: “Quando os sistemas param de funcionar para todos nós, paramos de confiar neles e começamos a desconfiar uns dos outros. Seja qual for a causa, esta crise de confiança está a destabilizar a sociedade, o futuro e o ambiente”.

Maher concluiu. Temos desafios enormes pela frente, e as mudanças climáticas talvez sejam os mais urgentes de todos. Não dá para pensar que resolveremos isso individualmente, e, sem confiança não é possível haver cooperação e colaboração para atacar esses problemas. — “Nenhum de nós vai salvar o mundo. Somos todos nós.” (weme 😊)

Portanto, seja qual for o desafio tecnológico ou político para os próximos 50 anos, a crise de confiança é uma ameaça existencial e definitiva. Uma vez que sem confiança nas instituições, falhamos em ter a capacidade para ultrapassar qualquer mudança individual para uma mudança em todo o sistema.


Esse foi um resumão de um tema que apareceu muito por aqui ontem.

Foram 19 talks e painéis e 30.000 passos contados no relógio.
Muita coisa rolou e eu destacaria também os temas: Gig Economy e a emergência de ferramentas para novos modelos de trabalho, o cenário otimista dos investidores depois de wework e uber, o surgimento de trilhas e modelos de investimentos paralelos ao Vale, e a Saúde centrada na mulher.👊