"Imagina uma empresa centenária, orientada à processos e controles, tendo que voltar e entender que tinha dado certo até alí, mas daqui pra frente precisava fazer diferente." Esse foi e é o grande desafio compartilhado pelo Gustavo em relação a jornada de inovação da Gerdau. Nessa conversa, ele contou como tem sido descobrir novos caminhos e compartilhou iniciativas que a Gerdau já vem realizando em relação a inovação. 


Gustavo, a jornada de transformação da Gerdau é muito inspiradora. Queria que você contasse um pouco pra gente como foi essa jornada. 


Tudo começou quando percebemos que precisaríamos fazer algo diferente. Começamos então pela transformação cultura, trabalhando alguns comportamentos como colaboração, autonomia com responsabilidade, simplicidade. (...) A inovação acontecendo de forma cada vez mais disruptiva no mundo, era o momento adequado para modernizarmos a nossa forma de lidar com a organização. De lá pra cá, todo o direcionamento da estratégia foi acontecendo a partir do desdobramento dessa nova cultura, dos elementos culturais. A Gerdau passou a ser uma empresa muito mais aberta, colaboradores passaram a interagir de maneira mais fluida, etc. 

É importante mencionar que quando a gente fala sobre transformação cultura e transformação digital na Gerdau, no final essas coisas estão muito juntas porque 80% da nossa transformação digital se dá através de pessoas, ou seja, estou falando em comportamento, atitudes. Não estou falando em paixão sobre tecnologia. 



Qual foi o gatilho para a mudança acontecer? Onde você encontrou mais desafios?

O motivador foi o momento de negócio quando olhamos do ponto de vista da globalização. Tenho vários aprendizados nesse meio de caminho. Hoje é muito claro pra nós que a centralidade nas pessoas e a digitalização tem muito mais o coeficiente de comportamento desta nova forma de fazer negócios do que a tecnologia por si só. Mas lá trás quando começamos, fizemos muito mais experimentos em relação a tecnologia do que com a preocupação genuína em transformar a maneira de trabalhar. Nós fomos aprendendo com os pequenos experimentos, diversos MVPs que fomos conduzindo. 


Como vocês trazem o equilibrio entre inovação e excelencia operacional dentro da Gerdau?


Hoje é claro pra nós que a organização precisa ser ambidestra. A teoria contínua faz parte da essência da Gerdau desde sempre, sempre fomos uma empresa muito orientada a melhoria contínua. Quando falamos em inovação mais adjacentes ou até mesmo incrementais, nesse sentido você tem novas técnicas, metodologias e maneiras de trabalhar que são bem diferentes. 

Talvez no momento 0 quando começamos a transformação, nos parecia que deveria acontecer num contexto, de uma mesma forma. Hoje nós sabemos que a organização vai ser híbrida e nós precisamos criar habilitadores organizacionais que permitam a organização lidar com isso. (...) Seguimos produzindo aço como deve ser feito, seguindo procedimentos, processos, receitas, listas técnicas, mas hoje pra mim tá muito claro que vamos viver esses dois mundos. 



Como vocês conseguem proteger esse lado híbrido na organização? E como, aos poucos, transformaram a organização mais sólida em mais líquida, ágil?

Eu remeto ao trabalho de cultura que fizemos, é um trabalho contínuo. Quando iniciamos esse trabalho em 2014, falamos de ter o atributo de simplicidade. Isso significa ter menos hierarquia, mais conversas abertas.

Quanto menos você tem hierarquias, mais você torna a organização adaptável e flexível pra assumir movimentos e tomar decisões rápidas. Umas das coisas que conquistamos através dessa jornada, é que a gente experimentou muito. Experimentem, façam, não tenham medo de pivotar, ou seja, matar iniciativas e começar outras. 


O erro faz parte do processo, mas muitas vezes é um dos maiores medos das empresas que estão acostumadas com um regime mais tradicional. Você consegue lembrar de um erro que te levou à direção correta?


Em uma organização orientada a aprendizagem, é normal que você tenha erros e pivote. Uma série de modelos que a gente tentou desenvolver lá atrás e no final não deram certo.. acho que um grande erro que cometemos foi estar mais focado na tecnologia do que na transformação em si. Hoje fica claro que não temos que nos apaixonar pela tecnologia e sim pela oportunidade e pelo problema que temos que solucionar. Se você mantém o foco assim, independente do como você vai atuar, você racionaliza bem o encontro da solução final. 

Qual é o problema que você tá resolvendo? Qual o tamanho da oportunidade? O quando isso agrega valor na tua estratégia? Isso foi uma coisa que aprendemos.. Ao invés de sair focando em inúmeras iniciativas, foquem naquelas que virarem ponteiro. Normalmente elas são complexas e vão exigir a capacidade de pivotar e retroalimentar o seu backlog continuamente. Por isso que a arte de você fatiar seu problema em partes menores, testando hipóteses e incrementando a sua abordagem é muito melhor.

Eu lembro quando começamos lá atrás, nós fizemos uma série de apps que hoje a gente se pergunta: pra quê? Mas tudo isso teve o seu valor porque a gente aprendeu que fazer pequenos experimentos traz intangíveis que você retroalimenta. De fato, inovar significa ter pragmatismo e conexão direta com a estratégia. 



Pra quem tá começando, é muito difícil enxergar o ROI de iniciativas que podem dar errado mas que serão pivotadas até dar certo. Como vocês foram comprovando os resultados da transformação digital e inovação?

Eu diria que ROI é uma métrica muito tradicional e às vezes fica difícil falar sobre investimento de inovação. (...) Não dá pra sofrer com isso, tá? Nós precisamos ter métricas que nos permitam acompanhar um progresso dessas iniciativas, não necessariamente financeiras nesse momento. Você diverge em métricas mais qualitativas, mais relacionadas a comportamento (...). Ao escalar um MPV, aí sim você precisar começar a entender como se conecta com a estratégia do negócio. Depende muito do estágio de inovação que você está.

Se você fosse apostar em um primeiro passo, qual é a sua sugestão pra quem está num estágio mais embrionário de inovação?


Eu morei por quase 1 ano no Vale do Silício. Quando eu voltei para o Brasil, um dos grandes aprendizados que eu trouxe e que já era uma verdade, já vínhamos percebendo, primeiro: inovação precisa de pragmatismo. Não adianta só criar coisas legais e também não significa que você precisa infantilizar ambientes. (...) Você precisa inovar olhando para o teu negócio, sem paixão pela tecnologias, mas com paixão pelas oportunidades do seu negócio.

Antes de começar, tente entender quais são as grandes apostas estratégicas olhando para onde o seu negócio está inserido e em função dessas apostas, venha de lá pra cá, sem preocupação com tecnologia. Comece pequeno, quebre o teu problema, estabeleça marcadores e metas que te permitam acompanhar o progresso. No final, se o seu MVP provar as hipóteses, pode escalar. Mais do que boas ideias, nós precisamos ter boas acabativas. Às vezes perdemos na execução. Na hora de tirar no papel, do powerpoint, de fazer funcionar, exige um time estar cheio de pessoas diferenciadas e de fato fazer acontecer. 

Assista a entrevista completa: