É nossa responsabilidade!

Web Summit 2019

Snowden de fato setou muito bem o clima do evento ontem. O Web Summit 2019 não é só um evento onde expõe-se as tecnologias presentes e futuras ou debate-se suas nuances técnicas; durante esse primeiro dia de evento participei de muitos espaços de discussão, debates e questionamentos sobre nosso papel na construção do futuro e como a tecnologia apoia esse caminho. Quase todos os painéis acabavam com a pergunta “e o que nós, nesta sala, podemos fazer em relação a isso?”. E mesmo quando a resposta permeava ações políticas, questionavam como nós poderíamos direcionar, pressionar e até mesmo participar da criação desses debates.

Lembrei de algumas falas do livro Homo Deus, do Harari. “Pela primeira vez na história, hoje morrem mais pessoas que comeram demais do que de menos; mais pessoas morrem de velhice do que de doenças infecciosas; e mais pessoas cometem suicídio do que todas as que, somadas, são mortas por soldados, terroristas e criminosos”. Os problemas técnicos da fome, da peste e da guerra já resolvemos, agora as mortes relacionadas a eles são ‘meramente’ (aspas!) mortes políticas. Ele indaga quais são os novos horizontes do desenvolvimento humano — o que podemos fazer com todo o poder que a tecnologia nos dá hoje?

Neste primeiro dia acompanhei um pouco dos debates sobre as sociedades do futuro — discussões no campo da educação, religião, sustentabilidade e até sexualidade. Em um painel com um professor cristão e um ateu, discutiu-se os impactos que a tecnologia tem no comportamento de nós como seres humanos, em nossos valores e em nosso senso de comunidade.

“Nós estamos criando máquinas que se comportam como humanos, mas no processo nós humanos estamos nos comportando cada vez mais como máquinas”.


No palco também tivemos Peter Tatchell, militante da comunidade LGBTQIA+ dizendo que coletar e analisar dados é absolutamente necessário a fim de dar confiança e evidências para as lutas das minorias. Como por exemplo na aprovação de políticas públicas por representantes do estado que nem sempre têm muito conhecimento sobre essas pautas, os dados de fato indicam o que é preciso e possível de ser feito para tornar a vida dessas pessoas melhor.

Logo em seguida tivemos um painel sobre educação. O mediador começou com a comum provocação sobre se ainda deveríamos ter salas de aulas. Diferente do que eu estava esperando, as respostas foram bem ponderadas não caindo na crítica de redesenho radical dos sistemas de educação, mas sim adaptações, personalizações e por que não, casamentos de diferentes meios de passarmos conhecimento. Na mesa, o CEO da Babbel.com (plataforma online para ensino de línguas) falou que, apesar de servir para facilitar o acesso ao conhecimento, nem sempre disponibilizar aulas online é o melhor caminho para aprendizado efetivo de diferentes tipos de conhecimento. “Nós vemos que aprender línguas online funciona também porque tira muito do estigma e do trauma de falha do aluno perante seus colegas: ser o único a não saber falar inglês. Estudando online o aluno se sente mais confortável de errar e ir no próprio ritmo”. Fez bastante sentido para mim.

“Hoje classificamos as pessoas entre ricas e pobres, mas daqui um tempo discriminaremos elas por ‘pessoas com habilidades digitais’ e pessoas ‘sem habilidades digitais’”.

Corinne Virgreux é co-founder da CODAM, uma escola de programação sem professores. A escola tem espaço físico aberto 24 horas, computadores, acesso à internet e acesso gratuito. Você segue um currículo e tira dúvidas com os próprios colegas ao seu redor (o modelo original é da escola francesa 42, dá uma olhada aqui).

Mmantsetsa Marope, diretora de educação da UNESCO, falou na mesa que muito mais do que “sair aprendendo” vários assuntos, as habilidades mais necessárias atualmente são

(1) saber como aprender;

(2) saber o que aprender;

(3) saber diferenciar o que é uma informação confiável das que não são.

Falando em confiança, acompanhei também o talk da Cassie Kozyrkov, Chief Decision Scientist do Google. Cassie enfatizou nossa responsabilidade como humanos em criar essa tal inteligência — “estamos tão animados em falar sobre máquinas aprendendo que esquecemos de falar sobre nós como professores”. Ela comparou os princípios do processo de ensinar algo a uma pessoa com os de ensinar algo a uma máquina e, olha só, eles eram exatamente os mesmos! Um exemplo: quando você vai ensinar algo, busca uma fonte, um livro completo, confiável etc — do mesmo jeito deve acontecer com machine learning, usar um dataset abrangente, confiável é fundamental para o aprendizado acontecer do da melhor forma possível. Cassie trouxe a perspectiva de que a parte objetiva e técnica é a menor no desenvolvimento de uma IA. A maioria é subjetivo de quem a cria; abrindo espaço para falas sobre o impacto de viés inconsciente e diversidade no desenvolvimento de sistemas — na época que comecei a estudar computação li um texto que gosto muito sobre isso, dá uma lida nele aqui e me diz o que acha :)

“Tecnologias são sobre desejos de quem as construiu — não existe tecnologia sem o ser humano”.

É, poderíamos passar horas conversando sobre esses assuntos, mas a noite já está correndo por aqui. Hoje me senti privilegiada por poder ouvir, mesmo que por poucos minutos, grandes nomes por trás — e à frente — de todos os tipos de tecnologias que usamos hoje e sonhamos para o amanhã. Outros dois talks que gostei muito foram os dos 50 anos de internet, com a co-criadora do Mozilla e o sobre a era da (des)confiança no conhecimento, com a CEO da Wikipédia — mas esses o Mauricio Bueno já conversou com vocês aqui. Por agora deixo essa foto que me marcou logo que abri a primeira página do Homo Deus e que se relaciona bem com as conversas de hoje: o homem controlando a criação.

Livro Homo Deus, Yuval Harari