Como num conto de fadas, o Web Summit chega ao fim

Web Summit 2019

“O futuro da internet será como o espelho mágico da Branca de Neve. Diremos ‘espelho, espelho meu’ na parede, e surgirá um rosto amigo, permitindo-nos acessar a sabedoria do planeta. Colocaremos chips em nossos brinquedos, tornando-os inteligentes como Pinóquio, o boneco que queria ser um menino de verdade. Como Pocahontas, falaremos com o vento e as árvores, e eles responderão. Vamos imaginar que os objetos são inteligentes e que podemos falar com eles. Como os computadores serão capazes de localizar muitos dos genes que controlam o processo de envelhecimento, poderemos ficar jovens para sempre, como Peter Pan. Seremos capazes de retardar e talvez reverter o processo de envelhecimento, como os meninos da Terra do Nunca, que não queriam crescer. A realidade aumentada nos dará a ilusão de que, como Cinderela, podemos ir a bailes a fantasia num coche real e dançar graciosamente com um lindo príncipe. (Mas, à meia noite, nossos óculos de aumento de realidade se desligam e retornamos ao mundo real.) Como os computadores revelarão os genes que controlam nossos corpos, seremos capazes de recompor nossos corpo, substituindo órgãos e mudando nossa aparência, até no nível genético, como a Bela e a Fera.”

E foi assim, como num conto de fadas, que me senti no segundo e no terceiro dia do Web Summit.

Esse é um trecho do livro “A física do futuro”, de Michio Kaku, físico futurista, e foi nele que pensei quando terminei de acompanhar as trilhas de deep tech e healthtech nesses dois últimos dias de Web Summit.

Dou destaque para os temas que mais permearam os talks mais técnicos — Inteligência Artificial, Big Data, Neuroengenharia, vida no espaço, Robótica (a boston dynamics levou um de seus incríveis robôs ao palco principal!) e Computação Quântica (aliás, você ouviu que o google supostamente a ‘supremacia quântica’ semana passada? Tivemos talk sobre isso também) — escolhe algum desses pra dar uma pesquisada no google e conhecer um pouco mais :)

Queria falar um pouco da trilha de saúde, minha favorita ❤

Tivemos talks com nomes de vários das principais soluções que estão revolucionando o cuidado com o paciente por todo o mundo — dou destaque para três grandes referências que temos para nossos projetos de healthtech na Bake Startup Studio: os co-fundadores da Butterfly iQ, da Babylon e da Ping An Doctor — com direito ao Nevada Sanchez, da Butterfly, abrindo a camisa no palco para gerar uma imagem 3D de parte do seu corpo, novafeature do ultrassom portátil que ele lançou ali ao vivo pra gente.

Discutimos sobre alterações genéticas (você já ouviu falar em CRISPR?); grandes players de tecnologia entrando no mercado de saúde (como apple, amazon e google) e a necessidade de mais dados e estudos sobre saúde mental. Também sobre o uso de wearables não só para medição de dados de saúde como para tratamentos de doenças (dá uma olhada nessa startup); o foco na personalização de serviços focados no bem estar dos usuários (como apps de controle de sono ou de coach fitness); e até de como serão nossas relações amorosas e sexuais quando vivermos em Marte (você já tinha cogitado refletir sobre isso? pois é rs).

São muuuuuuuitos temas interessantes para conversar e vários cafézinhos da weme necessários pra poder acompanhar tudo, mas quero dar destaque para um tema onipresente nos painés — o acesso mais democrático e facilitado à saúde.

Estudantes da Knowlegde Society — talk sobre mudanças climática

Seja para um acesso 24 horas nos 7 dias da semana ou para o acesso à saúde por pessoas em regiões subdesenvolvidas, a tecnologia é uma ferramenta de democratização da saúde.

O desenvolvimento de hardware minituaturaliza equipamentos de teste e diagnóstico possibilitando o barateamento e, por consequência, maior distribuição de cuidado a regiões remotas ou até a migração do equipamento do hospital à casa do paciente (a gente já tem medidores de batimentos cardíacos em nossos relógios, já imaginou ter um aparelho de ultrassom em casa pra você mesmo ‘dar uma olhadinha’ na barriga quando sentir aquela pontada no estômago que tá te incomodando?). Aplicações mobile com análises de dados são como “coaches” da sua saúde, te lembrando de remédios, melhores hábitos alimentares e, por acompanhar seu comportamento todo dia, conseguem te recomendar melhores comportamentos para sua saúde — um cuidado mais personalizado até do que aquele médico da sua família que te conhece desde criança (que aliás, está cada vez mais difícil de se achar).

A inteligência artificial é alimentada com imagens ou sintomas que você está sentindo, e consegue te tirar do escuro dando uma primeira opinião sobre o aquela mancha que apareceu na sua pele semana passada. Aí logo em seguida você loga em uma plataforma de telemedicina para consultar um médico especialista e discutirem se de fato é uma mancha de sol, stress ou um câncer. E você nem precisou sair de casa.

Bom, seja no setor de saúde, de entretenimento, de moda, de energia, de mobilidade, de música, de alimentação, no financeiro, no industrial — a tecnologia está de fato cada vez mais na nossa rotina. Ficção científica ou conto de fadas, é fato que cada vez ela se faz presente em nossa rotina pra mudar o jeito que nos relacionamos com o mundo, com as outras pessoas e principalmente, com nós mesmos.


Alguns outros hightlights que trouxe para vocês:

> Um dos meus talks favoritos foi o de 3 adolescentes de 16 anos trazendo uma abordagem técnica e científica para resolver ‘de fato’ o problema das mudanças climáticas no mundo. Eles falam, por exemplo, como as vacas, nossa principal fonte de carne atualmente são, na verdade, pouco otimizadas para esse objetivo — só 3% dela é aproveitado para nos dar alimento, em que indústria seria aceitável usar uma máquina com somente 3% de eficiência??? Eles falam ainda que seria ótimo que todo mundo fosse vegano, mas nós não temos o luxo de esperar o tempo que levará para “converter” todo mundo ao veganismo — precisamos resolver esse problema “pra ontem”, e o único jeito é desenvolvimento tecnologia pra isso — por exemplo usando computação quântica para desenvolver novos materiais para estocar energia, ou engenharia tecidual para criar carnes a partir de células tronco de animas, sem a necessidade, claro, de matá-los no caminho. Daria para escrever um artigo inteiro sobre esse talk, mas vou deixar a referência aqui.

Estudantes da Knowlegde Society — talk sobre mudanças climáticas

> Também tivemos um bate papo para encerrar o evento com Margrete Vestager, da European Comission for Competition, em sua terceira ou quarta participação como speaker favorita de quem atende ao evento. Ela já confrontou em tribunal a Apple, Amazon e Google em questões regulatórias das tecnologias — e ganhou de todas. Eu não a conhecia, mas agora com certeza vou começar a acomanhar seu trabalho; fica um convite pra mais uma googlada também :)

Bom, era isso. Deixo aqui e aqui os outros textos que escrevi nos últimos dias sobre esssa edição do Web Summit. Obrigada pela companhia até agora, me despeço para aproveitar um pouco das minhas últimas horas em Lisboa :)

Até a próxima!